A literatura universal e particularmente a de língua portuguesa, perderam uma de suas maiores referências intelectuais. As letras estão de luto. Morreu José Saramago. Nesta última sexta-feira (18), aos 87 anos, ele deu seu último suspiro nos braços da sua amada Pilar del Rio. Partiu, mas deixa uma obra para a eternidade. Uma vasta quão fecunda criação em crônicas, poesia, contos e romances que fizeram engrandecer em todos os quadrantes da Terra o idioma antes universalizado por Camões. Diante das inúmeras homenagens póstumas e merecidas referências elogiosas que foram lhe dedicadas por vultos da inteligência mundo afora, pouco me resta a acrescentar à sua ilustre memória. A não ser sentir um profundo ermo plantado na alma, uma solidão entranhada no espírito como se eu próprio me sentisse órfão e abandonado na ilha semi-desértica de Lanzarote, localizada próxima das costas da África, vulcânica e de solo lunar, território das Canárias onde ele viveu seus últimos dias. Em auto-exílio ao qual se impôs, decepcionado que ficou com a censura feita em Portugal, sua terra natal, a um de seus livros, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, considerado profano pela ótica bitolada de autoridades portuguesas que, em 1.993, em pleno limiar do século XXI ainda não conseguiam separar as funções do Estado laico com as do religioso. Especialmente no tocante às artes e, em particular, às liberdades de criação e expressão. Há tempos, aqui neste mesmo espaço de opinião do Diário de Cuiabá, tive um artigo publicado e no qual, além de apenas proclamar o óbvio ao exaltar a qualidade superior da produção literária de Saramago, me indagava o que levava um escritor Prêmio Nobel da Literatura, como Saramago, escolher um local tão inóspito, de natureza quase morta, sem verde e sem vida, para fixar residência?! Não sabia então do seu profundo e justificado - desgosto por ter sido censurado em sua própria casa, pelo governo português, em uma atitude quadrúpede e na contramão dos ventos da liberdade. Ao ponto que, como protesto, pegou sua Pilar, largou Lisboa e as proximidades com a sua aldeia de Azinhaga, província de Ribatejo, onde ele nasceu, para ir se enfurnar em um lugar desses que mais parecem com aqueles onde Judas perdeu as botas... À época em que escrevi o referido texto, ainda não tinha as informações sobre os motivos porque José Saramago trocara os ares da Capital portuguesa por um além-mar perdido no horizonte, e buscava compreender o que havia se passado na cabeça do escritor para tomar atitude tão inusitada. Queria apenas entender os mistérios da alma que pudessem induzir um homem culto, viajado e que, quando se mudou de Lisboa, já contava com recursos financeiros suficientes para viver em paragens mais amenas ou mais belas em qualquer ponto do planeta. Por que Lanzarote? Era a pergunta que não queria calar dentro de mim. Agora sei. Assim como mártires que se imolam, deixam-se queimar vivos, adotando medida extrema em luta por uma causa que eles consideram justa ou santa, José Saramago pode ter feito da ensolarada ilha das Canárias, onde quase nunca chove e a vegetação é petrificada e cinzenta, sua fogueira simbólica. Ele também se imolou, fazendo a seu modo um protesto em defesa do direito sagrado à liberdade de expressão. Foi grande em vida e na morte. Tombou ereto e firme. Viaje em paz, mestre! Mário Marques de Almeida é diretor do jornal e site www.paginaunica.com.br E-mail:
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