Os últimos desdobramentos da campanha eleitoral em Cuiabá já mostram claramente que está se discutindo muito mais 2010, do que 2008. Exemplo mais concreto foi a decisão do deputado federal Valtenir Pereira de apoiar o PSDB do prefeito Wilson Santos, na condição de vice-prefeito. Considerando-se a possibilidade de vitória de Wilson Santos, Valtenir teria seguramente um mandato de prefeito por aproximadamente um ano, segundo o acordo firmado. Ora, ele não leva somente o PSB, mas o PV e o PCdoB. Leva, claro, o tempo de televisão e de rádio no horário eleitoral gratuito que dará à coligação cerca de 12 minutos. É muito tempo. Mas o que conta mesmo nesse caso, é que um partido de esquerda, aliado com mais dois outros de esquerda autêntica, chega ao poder municipal em Cuiabá. É inusitado, porque de outra forma isso jamais aconteceria. O que fará na prefeitura um partido de esquerda? É muito difícil de dizer, porque da maneira como a coisa foi construída, não deu tempo de se construir um projeto e nem um modelo de administração para quem não tem experiência nenhuma em administração. Não custa lembrar que em 1992 o PDT chegou ao poder em Cuiabá com Dante de Oliveira, um escolado herdeiro das idéias do MDB e depois do PMDB. Vinha de uma formação legitimamente esquerdista de combate à ditadura militar, participante de movimentos como o MR8. Mas na prefeitura acabou por não conseguir realizar os sonhos esquerdistas porque a herança das esquerdas brasileiras sempre foi mais romântica do que prática. Veja-se o PT no governo federal. Idéias e anseios de mais e realizações de menos. Porém, Dante mexeu bem na área urbanística da capital e em alguns tópicos relevantes da infra-estrutura. Mas avançou muito menos do que desejava. A presença da esquerda junto com o candidato as prefeito Wilson Santos lhe dará uma cara de renovação de discurso, que hoje se resume às suas realizações que, obviamente, têm quem goste e têm que não goste. Um discurso de esquerda bem costurado poderá dar uma cor mais alegre no discurso do fez e não fez. Além de sair daquele velho estilo de critica à gestão passada que tanto atormenta os prefeitos empossados. Na realidade, existe um grande vácuo entre a sociedade e a administração municipal. Não são apenas as realizações físicas que importam. O funcionamento da máquina administrativa é muito cruel em relação aos cidadãos. Mas mexer nesse vespeiro não é discurso para ano de eleição. Quem sabe no eventual segundo mandato se possa melhorar essa estrutura administrativa antiga, inchada e ineficiente. De qualquer modo, um discurso de esquerda bem costurado, sempre agradou ao eleitor. No artigo de amanhã se verá sob a mesma perspectiva de poder a candidatura Mauro Mendes. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
[email protected]