Gostei muito de uma frase do pai de Werner Schünemann, citada pelo ator e publicada pela Folha de S. Paulo: "Comprar livros seria ainda melhor se junto pudéssemos comprar tempo para lê-los". Por coincidência, este pensamento me ocorrera alguns dias antes, enquanto percorria os corredores de uma grande livraria no Shopping Pantanal à procura de Corações sujos, de Fernando Morais - que eu li quando foi lançado, mas que devo ter emprestado para alguém que jamais o devolveu. Achei o livro, mas não havia, em nenhuma daquelas estantes abarrotadas de idéias, sequer uma fração de tempo à venda. Sempre considerei a leitura uma agradável perda de tempo. Fiquei ainda mais seguro desta visão depois de ouvir de um renomado psicólogo que ler é um dos principais exercícios para o desenvolvimento da inteligência. Ainda assim, na era da instantaneidade em que vivemos, sou obrigado a reconhecer que recende a anacronismo folhear 400 ou 500 páginas para descobrir o fim de uma história. Parece coisa de gente antiga. A garotada de hoje é capaz de fazer a mesma coisa com um ou dois cliques, mas duvido que tenha o mesmo sabor. O intrigante é que eles - os meninos da idade digital - têm ainda menos tempo para desperdiçar do que nós. Fazem tudo rapidamente e se impacientam quando precisam esperar alguns segundos por uma resposta de suas máquinas turbinadas. Também eles, tenho certeza, pagariam de bom grado por esta mercadoria inexistente que todos procuramos sem encontrar. Inexistente talvez não seja a palavra adequada. Agora mesmo, um dos cursos da moda é o de Administração do Tempo. Se não é possível comprá-lo, pelo menos pode-se tentar uma economia pelo lado da despesa, como fazem os gestores modernos. Suponho que a idéia é gastá-lo racionalmente, com planejamento e método. Não sei como entraria a leitura de um daqueles deliciosos livrões de histórias inúteis neste processo. É muito provável que a doutora do tempo recomende apenas livros indispensáveis, para que o paciente obtenha o máximo de produtividade. Afinal, tempo - como diz o velho adágio - é dinheiro. Talvez aí esteja a explicação: não podemos comprá-lo porque ele é a moeda das nossas horas. Mesmo assim, vou ler o meu livro. Foi lendo um deles que descobri esta verdade: o tempo que você gosta de perder não é um tempo perdido. * GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de Redação do Diário.
[email protected]