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ARTIGO
Terça-feira, 03 de Maio de 2011, 20h:43

GABRIEL NOVIS NEVES

Pedro, eu já sabia

Nos jogos de futebol transmitidos pela TV Globo, em qualquer local do mundo, sempre aparece uma faixa escrita em português: “Galvão, eu já sabia.” Quando começaram as discussões sobre entregar as gerências dos hospitais públicos do Estado para as famosas Organizações Sociais de Saúde (OSSs), com o mesmo valor que hoje é repassado, que é o de uma miserável tabela do SUS, pensei na faixa do Galvão. Quando não foram discutidos sequer os atrasos criminosos nos repasses das migalhas aos hospitais por serviços já prestados, glosas e o costumeiro calote, também pensei na faixa do Galvão. Em nenhum momento foi dito que um dos principais problemas que fizeram com que a nossa saúde pública fosse uma vergonha e uma desonra para a nossa população, é que há muito tempo ela está subfinanciada, com o silêncio covarde dos nossos representantes políticos. Governadores, prefeitos, senadores, deputados fazem caminhadas de protesto em Brasília, quando o assunto incomoda os financiadores de suas campanhas. Profissionais de saúde e doentes não têm caixa para bancarem a eleição de um representante político, logo, a saúde nunca foi questionada por essas autoridades. Qualquer probleminha que altera temporariamente o lucro do pessoal do agronegócio, principalmente, é uma romaria à capital Federal. O caminho encontrado nesses últimos dez anos de chumbo para a nossa saúde pública, foi uma campanha do governo desqualificando os médicos e todos os trabalhadores da saúde, com salários mesquinhos, sem aumento, treinamento técnico e tratamento policial. O tal governo da continuidade, foi um mal que se cometeu contra o nosso povo. O sucessor não pode, por enquanto, dizer à população da herança recebida. Leio nos jornais que foi assinado com o Instituto Pernambucano de Assistência e Saúde (IPAS), um repasse de 31 milhões/ano para gerir o Hospital Metropolitano de Várzea Grande, que há meses foi inaugurado e prometido, recentemente, que estaria apto a funcionar no dia cinco de maio deste ano. Na assinatura do contrato diferenciado o secretário anunciou uma pequena correção na data em que aquele hospital receberia o seu primeiro paciente - daqui a noventa dias. Um ano e três meses se passaram do novo governo, e a única novidade no ponto mais frágil do governo, é esse contrato de risco. A firma de Pernambuco, assim que tiver condições de receber doentes, terá uma tabela diferenciada de pagamento de 2.8 vezes a tabela que o SUS paga hoje à Santa Casa, Hospital Geral Universitário, Santa Helena, Sotrauma e outros. Pelo contrato serão feitas 77 cirurgias ortopédicas de “média complexidade”, 144 cirurgias gerais e 250 de hospital dia, sem necessidade de internação. Traduzindo: não será realizada nesse hospital, de apenas 61 leitos, nenhuma cirurgia de "alta complexidade". “As cirurgias gerais serão de baixa complexidade” e 250 serão pequenas cirurgias, tipo extração de unha, em que o paciente é logo liberado. Não precisa ser médico para saber que em breve teremos o parto da montanha em Várzea Grande. Os grandes hospitais de Cuiabá, com o dobro do número de leitos, com UTIs em várias áreas médicas, informatizados, realizam cirurgias de alta complexidade em muitas especialidades, e atendem pacientes de todo o Estado. Praticam inúmeras outras cirurgias de média e baixa complexidade. Todo esse atendimento tem o suporte de laboratórios com equipamentos de última geração, e Pronto Atendimento com mais de 6 mil atendimentos mês. Faturam, praticamente, o que foi proposto ao Metropolitano de Várzea Grande. O Estado é caloteiro e os planos de saúde, com as suas tabelinhas, são os causadores dessa situação desumana. Umas perguntinhas pairam no ar: Onde estava escondido esse dinheiro que agora apareceu? Quem, e como esconderam por tanto tempo? Qual o objetivo em sucatear um serviço que a própria constituição brasileira garante a todos os cidadãos? A sociedade aguarda uma resposta. Pedro, eu já sabia! *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16967




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