Há muitos que considerarão débeis, descoladas da realidade, as minhas considerações, mas as proposições que pretendo afirmar são calcadas na mais concreta praticidade. Falo acerca do caos urbano que tornou o tráfego motorizado, naturalmente decorrente de uma civilização industrial, que construiu no imaginário coletivo o sonho fácil, consumista e individualista de adquirir um carro ou uma moto, em um desejo de compra de todo brasileiro. As conseqüências são visíveis e trágicas por tal opção, o número de vítimas fatais nos acidentes de trânsito, a emulsão de gazes tóxicos que comprometem o aquecimento global, não esquecendo dos gastos públicos irremediáveis para manutenção de uma malha viária ineficaz, cumulada ao stress de sempre estarmos atrasados para os nossos compromissos profissionais em razão das deficiências do trânsito. Preliminarmente, a alternativa cicloviária, o andar de bicicleta, nos transparece nostálgica e burguesa, identificada ao lazer de poucos abastados, cultivadores do ócio, que adotam o pedalar como uma alternativa de entretenimento. Mas que já tornou-se palpável e lucrativa como solução turística em importantes cidades cosmopolitas, como Paris e Lion na França, que implantaram ousados projetos de percursos turísticos pedalando. Com o Vélib, em Paris, foram disponibilizadas 10.648 bicicletas em 750 estações espalhadas pela cidade. É um self-service implementado na cidade-luz que transformou a vida de moradores e turistas. Uma idéia simples, barata e prática que ajudou não só no desafogar do trânsito, mas também a diminuir os níveis de poluição. Em Lyon foi implantado um sistema similar, chamado de Velov, e já possui três mil bicicletas em 250 estações. Particularmente gostaria de falar em trabalhadores cuiabanos que utilizam a bicicleta como prioritário veículo de transporte, são pedreiros como o Carlinhos, eletricistas como o Baixinho, seguranças como o Vando, que se arriscam diariamente ao circular pela cidade em uma alternativa de transporte que não é prioridade dos gestores públicos. Seria leviandade e até utopia supor que a criação de ciclofaixas e ciclovias, exclusivas e com sinalização própria, de modo a construir um sistema com trajetos que possam ser percorridos de bicicleta; a definição de locais específicos para o estacionamento dos novos veículos; a integração das bicicletas com o sistema de transporte e a criação nos terminais de transporte coletivo infra-estrutura apropriada para guardar as bicicletas; poderiam resolver por si só os problemas de um trânsito caótico e conturbado. Há de considerar, porém, que o incentivo à implantação de tais medidas, beneficiando este transporte alternativo, melhoraria muito o cotidiano desses ciclistas, a qualidade de vida e a preservação ambiental da nossa cidade. Urge, entretanto, a necessidade de surgimento de protagonistas dessa nova ação política, capazes de alterar os paradigmas do transporte em nossa cidade, incluí-la na agenda de compromissos urgentes, e para tanto, basta o velho combustível, vontade política para acontecer. Cuiabá vai agradecer. * MARIO NADAF é advogado, filiado ao PV e professor do Colégio São Gonçalo e do CuiabáVest
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