ARTIGO
Quarta-feira, 28 de Março de 2012, 22h:28
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Para Marcos e Chico
Para Marcos e Chico
No início de minha carreira como jornalista, ainda trabalhando por puro diletantismo no jornal alternativo Sorocaba Urgente, lá pelos idos de 1978, fui destacado para entrevistar o escritor Marcos César, responsável pelos textos interpretados pelo humorista Chico Anysio, na revista dominical Fantástico, da Rede Globo. Cheguei com as orelhas sorrindo, pronto para ouvir histórias engraçadas de um tipo alegre e bem-humorado. Ledo engano! Logo na entrada de sua residência, o choque... A decepção. Um homem taciturno, austero e até meio rude nos recepcionou sem gracejos, nem sorrisos. E foi logo avisando: Fazer humor não tem graça... é coisa séria. Justo ele, o criador de frases impagáveis, de tiradas hilariantes, o pai do Azambuja, era uma pessoa desprovida de qualquer senso de humor. Levei muitos anos para entender aquela figura humana. Um homem cheio de rancores. Seus textos eram brilhantes, talvez porque não enxergasse graça nas coisas. Talvez porque a vida lhe fosse pesada. E o humor era, exatamente, a sua revanche. O seu escárnio contra o destino. Marcos César morreu cedo. Aliás, seu nome de batismo era Ari Madureira. Um nome pouco sonoro, meio sem-graça. Mas, sua obra foi inquestionável. Seus esquetes seguravam a audiência do Fantástico, na interpretação magistral e inspirada de Chico Anysio. Algum tempo depois, tive o privilégio de entrevistar o próprio Chico Anysio, que excursionava pelo interior paulista. Encontrei nele uma figura afável, solícita e descontraída. O Chico da vida real fazia jus ao Chico da tela. Era fácil compreender aquele homem. Era fácil rir de suas piadas, assim como era fácil encantar-se de sua elegância. Na semana passada, o Brasil perdeu o seu mais criativo, inteligente e virtuoso humorista. Dono de 209 personagens que povoaram o imaginário brasileiro, Chico Anysio fez da piada um símbolo da integração nacional. Seus bordões uniam gaúchos, nordestinos, paulistas, cariocas e mato-grossenses numa mesma gargalhada. Chico gostava de repetir que a diferença dos brasileiros com os outros povos era, justamente, a sua capacidade de rir da própria desgraça. Marcos César e Chico Anysio tinham a mesma visão sobre o humor, embora adotassem publicamente posturas opostas. Um era o escritor; o outro, o ator. Mas, de qualquer forma, para eles, rir era o último recurso contra o infortúnio. A risada era a negação do revés. E a gargalhada, o desprezo contra o pessimismo. Encontrar graça na desgraça é coisa de gente evoluída. É a conjuração da dor, a subversão do sofrimento e, por fim, a traição definitiva contra a autopiedade. Por isso, não podemos prantear o falecimento de Chico Anysio com lágrimas que se esvaem com o passar dos dias. Muito menos, afogarmo-nos em tristezas e mortificações. Nossa homenagem a ele deve ser apenas a saudade, o gosto de quero mais. Um sorriso armado no canto da boca, pronto para explodir numa sonora gargalhada. Para Chico e também para Marcos, só posso rir. Ha...ha...ha!!! *PAULO LEITE é escritor e jornalista