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ARTIGO
Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010, 20h:40

RENÊ DIÓZ

Overdose anual

É, gurizada, Natal tá aí. Para ter esta certeza, nada melhor que ver a constrangedora geleira artificial – isopor, plástico, fibra de vidro dessas de piscina? - que uma loja de eletrodomésticos da cidade criou para enfeitar sua fachada numa super-promoção. Já rola até aquela preocupação com a qualidade dos pisca-piscas que vamos comprar. Esses troços são bons mesmo pra estragar fácil fácil. Por isso, o Inmetro já tá de olho pra reprovar marca que não acender direito no Fantástico. Enquanto isso o pessoal do bairro especula se, este ano, o caminhão iluminado da Coca-Cola vai passar lá. Por outro lado, já tem propaganda com sininhos na trilha sonora. No supermercado, estão lá as primeiras remessas de panetone e variantes; o cheiro adocicado vai se alastrar e a gente vai continuar empurrando os carrinhos com um bocado deles. Nas geladeiras de muita gente, provavelmente haverá panetone até pós-reveillon, uma overdose anual. Na firma, na família e com os amigos logo vão aparecer os primeiros sorteios de amigo oculto, olcuto (sic), secreto, “chocreto”, da onça, invisível, top secret. Mesmo que todo mundo vá chegar na hora da festa sabendo quem “tirou” quem. Uns vão ficar ansiosos nos cantos da festa, tomando coca e comendo salgadinho encomendado, esperando que quem o tirou tenha comprado algo acima de cinquentão. E, quando a brincadeira não for previamente sorteada, ninguém vai querer a meia. Pois o planejamento nessas horas realmente é tudo. Festa de família? Melhor decidir logo que barrigudo vai largar a cerveja com chester pra encarnar o bom velhinho com aquela roupa quente e a barba postiça pinicando. Em Cuiabá, pelo menos, eu sempre soube que este sujeito vermelho nunca existiu. Mas haverá um posando para fotos estupidamente caras no shopping. Ele chegará em pompa, mas bufando naquela roupa, sob o sol desta terra onde a cuia faz bá quando bate no rio. Garantidas as luzinhas, também já vamos comprar um pinheiro de plástico, bolinhas de plástico, colocar uma guirlanda de plástico na porta e começar a se espantar com os preços dos brinquedos – até porque sempre tem uma criança na família. As vitrines vão até dar um ânimo de entrar para comprar, fazer uma criança sorrir, mas anotem: os bonecos do Ben 10 vão sair os olhos da cara. E vai ser desanimador encarar as filas de inscrição nos shopping até para concorrer a um liquidificador de três velocidades. E haverá os especiais de televisão, a decoração fajuta na cidade, a poluição visual, e vai demorar pacas a passar essa época do ano, gurizada. Mas outro dia me avisaram que vou aprender a gostar da maioria dessas coisas quando tiver filhos. RENÊ DIÓZ é repórter

Edição EDIÇÃO 16967




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