O último número da Super Interessante trouxe uma matéria sobre o país asiático Butão, com 2,2 milhões de habitantes, encravado entre os gigantes China e Índia. Faz 34 anos que um rei de 17 anos, Jigme Singye Wangchuck, vaticinou: - Hei, o Produto Interno Bruto não é mais importante que a felicidade interna bruta. Um país paradisíaco, de belíssimos rios, flora e fauna exuberantes; porém, marcado com um índice alarmante de analfabetismo, a escravidão foi extinta apenas em 1952, o asfalto só chegou em 1962, o rádio em 73 e a televisão em 98 e a internet, talvez no final desse ano. Para tentar inverter a norma capitalista adotou-se nove áreas para medir a felicidade do povo: Padrão de vida (renda per capita e qualidade dos bens e serviços), Boa governança (avaliação do governo), Vitalidade da comunidade (confiança entre os membros da comunidade), Equilíbrio do tempo (divisão do tempo entre trabalho, família e lazer), Saúde da população, Vitalidade e diversidade da cultura (avalia a relação dos habitantes com os costumes e com os lugares), Vitalidade e diversidade do ecossistema (qualidade da água, ar, solo e a biodiversidade), Educação e, finalmente, o Bem-estar emocional (demonstra o grau de satisfação e otimismo de cada um sobre si). Claro que lá não é o paraíso; todavia, há indícios de que eles priorizam o povo e, mais tempo; menos tempo, o equilíbrio social será atingido, e nós, até quando viveremos de palavras e promessas não cumpridas? Até quando os interesses econômicos prevalecerão sobre os valores humanos e ambientais? Avizinham-se as eleições e novamente ouviremos palavras mentirosas e traidoras. Não vale a palavra, não vale o homem; vale a vitória, vale o dinheiro. Vejamos como o virtualmente reeleito Blairo Maggi adora o nosso estado. Mato Grosso é o campeão brasileiro em desmatamento e em focos de incêndio. Só que depois da Motosserra de Ouro, dada a ele pelo programa Pânico, inundou-se Cuiabá com propaganda de mil ações para preservar o meio ambiente. Será que ninguém se lembra quando o governador disse que ainda tínhamos muito para desmatar? Quero minhas árvores e meus rios de volta, governador! Não vou ser conivente, como muitos são, com afirmações como aquela que o senhor fez ao New York Times em setembro de 2003: - Pra mim, um aumento de 40% não significa nada; não sinto a menor culpa pelo que estamos fazendo aqui. Estamos falando de uma área maior que a Europa toda e que foi muito pouco explorada. Não há razão para se preocupar. Um outro Mato Grosso é possível que não esse do desmatamento, da soja que enriquece alguns e arrasa para sempre o meio ambiente. Um outro Mato Grosso é possível, centrado no turismo histórico e ambiental. Temos história, desde 1719 fazemos a riqueza desse país e recebemos como paga a destruição ambiental e vilipêndio da nossa gente. Basta! Um outro Mato grosso é possível e nele reinará a permanente busca do equilíbrio social. A redistribuição de rendas, educação de qualidade, geração de empregos e a preservação ambiental serão metas factíveis e, portanto, reais. Tom Jobim e Chico Buarque compuseram em 1968, Sabiá que, além de denunciar a Ditadura Militar, falava da questão ambiental: Vou deitar à sombra/ De uma palmeira/ Que já não há/ Colher a flor/ Que já não dá. Sociedade mato-grossense é chegada a hora de pensarmos e escolhermos o futuro e que ele seja sem motosserra, sem desertos de areia e desertos verdes, sem rios poluídos, sem queimadas e sem miséria social. Um outro Mato Grosso é possível, depende de nós. * SÉRGIO CINTRA é Professor e diretor Executivo da Funec
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