No último domingo escrevi neste espaço o artigo Admirável mundo novo dos jovens, tratando da alienação da juventude em relação ao mundo atual, naquilo que não os agrada, como a corrupção, por exemplo. Recebi contribuições muito relevantes a respeito. Entre elas, a do professor Kengi Kido, da Unirondon. Aposentado na Universidade Federal de Mato Grosso, Kido é um amigo antigo. Sua área é a educação física, mas sua visão sempre foi a da educação integral e humanística. Ontem ele disse-me que o artigo de domingo deveria ter enfocado mais de perto o papel da família. É aí que as neurociências têm descoberto as causas de tantas mudanças e de tantas frustrações. Descobriu-se que crianças criadas com desamor, isoladas em creches, em lares de assistência sem carinho, ou em famílias distantes, possuem muito menor capacidade de interligação entre os neurônios do cérebro. Quer dizer, além da subnutrição alimentar, a subnutrição afetiva é tão grave quanto a primeira. Na atualidade, a criação da juventude se dá pela pior maneira. Pais e mães ausentes, afastados pelo trabalho, sem que haja uma complementação emocional através da educação. A ansiedade profissional dos pais gera um distanciamento crescente a partir da fase primeira, onde sequer a amamentação adequada é dada ao bebê. Ele acaba entregue às babás e às creches no primeiro momento, às escolinhas maternais no segundo e à escola fundamental depois, e assim sucessivamente. Todos os problemas delas acabam sendo resolvidos na solidão. Em conseqüência da falta de valores familiares consolidados pelo afeto, pelo apoio presente dos pais, a presença insossa dos professores não substitui a família. E a família não dá o suporte desejado e esperado pelos jovens. Isso, sem contar que as mães estão perdendo a habilidade de serem mães. Ao primeiro sintoma de febre ligam desesperadas para o pediatra, com medo de arriscarem umas gotas de dipirona básica. A criança, dizem os neurocientistas, percebe essa insegurança e acaba assimilando de maneira inconsciente uma eterna ausência de suporte emocional. Quando a corrupção inunda o serviço público, arregaça os setores políticos, contamina a justiça e dá a impressão de fim do mundo, a causa está lá atrás, na família ausente. Sendo assim, é de se esperar que o futuro não mude muito, porque a educação vem piorando nas duas vertentes efetivamente importantes: a família e a escola. Segundo o professor Kido, se a escola melhorasse a partir de hoje tanto os conhecimentos que ministra quanto a educação, ainda levaria 40 anos para alcançarmos uma cidadania consciente. Mas a conclusão dele, baseada na ciência e na vivência como professor é clara: todas as crises atuais nascem a partir da família. O resto é só o efeito cascata. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
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