Por tudo quanto é canto deste mundo conturbado pessoas de todas as etnias e crenças se perguntam, em clima de compreensível estupefação, o que aconteceu com Barack Obama. Quais as razões dessa chocante guinada de 180 graus dada por um cara que ascendeu aos cumes do poder em jornada cívica empolgante, enfrentando percalços de toda ordem. E que, arrostando virulentas incompreensões, nascidas da intolerância mais descabida, e justamente por isso, andou acumulando credibilidade e simpatia como nenhum outro estadista mundial em tempos recentes. Que diabo de coisa é essa que provoca num homem vocacionado para a liderança repentina mudança de atitudes de tamanha proporção? Que ínvios caminhos foram esses no percurso percorrido que levaram personagem tão fascinante, um cidadão amável, de porte altivo e desassombrado, verbo chamejante, preciso nas conceituações alusivas a um processo de construção humana bem estruturado, defensor impreterito dos direitos civis, a abdicar de suas alardeadas convicções humanísticas? A botar clamorosamente pra escanteio a chance de assumir, ao lado dos patrícios Roosevelt e Luther King e de cidadãos do mundo como Gandhi e Mandella, um lugar de proeminência na história contemporânea? Quando da chegada à Casa Branca, Obama soube como ninguém reacender a chama da esperança por um mundo melhor em bilhões de corações generosos. Por onde circulou, nos numerosos locais visitados, arrancou aclamações entusiásticas de verdadeiras multidões. Mas, pouco a pouco, esse clima de contaminante euforia à volta do líder providencial foi sendo desfeito, em razão dos atos praticados contradizerem contundentemente a retórica retumbante. Obama enveredou por um cipoal de contradições e vacilos. Desmentiu-se um bocado de vezes. Pisou na bola. Afogou-se em contradições. Candidato a presidente, garantiu repetidamente, debaixo de ovações populares, que iria pôr fim ao terrorismo das escutas telefônicas executado pelo seu belicoso antecessor, o xerife George Bush. Não cumpriu nada do que prometeu. A arapongagem eletrônica estadunidense foi ampliada em níveis que se fizeram a cada dia mais intoleráveis. Que o digam o Brasil e os brasileiros. Assegurou que conteria os impulsos belicistas dos falcões que enxameiam os corredores do Pentágono. O que se viu, pelo contrário, foi uma extensão mortífera das intervenções por parte das poderosas forças armadas estadunidenses. Sempre em aberto desafio aos sentimentos da opinião pública e às recomendações expressas da comunidade das nações. Asseverou, seguidamente, que riscaria do mapa o campo de concentração de Guantânamo, restabelecendo a ordem jurídica na apreciação dos casos dos detentos recolhidos ali e em penitenciárias clandestinas implantadas nalguns países do leste europeu. Países esses que não escondem mórbido saudosismo dos tenebrosos tempos da KGB e órgãos de repressão assemelhados disseminados pelo extinto império bolchevista. Tudo, nessa questão tormentosa, não passou também de retórica oca. Ganhou antecipadamente, tal a expectativa formada à volta das credenciais exibidas, um vê-se agora com cristalina clareza imerecido Nobel da Paz. Num dos lastimáveis vacilos cometidos, estimulou Lula e o primeiro ministro turco Tyyiq Erdogan a promoverem entendimentos com o regime dos aiatolás raivosos do Irã, numa tentativa de apaziguamento dos ânimos com relação ao controverso programa desenvolvido pelo país no melindroso campo da energia nuclear. As gestões foram concluídas com razoável sucesso. Mas Obama deixou os dois prestimosos aliados desguarnecidos a falarem sozinhos em meio à tormenta. Espalhou rastro inapagavel de decepções em tudo quanto é lugar, chocando aliados e seguidores. O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, traduziu isso em incisivo comentário: É chocante que os Estados Unidos atuem contra os seus aliados mais próximos de forma comparável às medidas tomadas no passado pela KGB, da União Soviética. Obama vem demonstrando também inabilidade perturbadora na condução do processo de paz no conflagrado Oriente Médio. Dá mostras continuas de antepor-se ao projeto, irresponsavelmente protelado há décadas, de constituição da pátria palestina. A um só tempo em que, da boca pra fora, derrama-se em louvores às políticas de fortalecimento da democracia e de difusão dos direitos fundamentais, confere apoio irrestrito a ditaduras feudais no convulsionado mundo árabe. Todo esse amontoado de insanáveis contradições acabou fica evidente por derrubá-lo do pedestal em que foi colocado, por largo espaço de tempo, no conceito da opinião pública mundial. Que pena! *CESAR VANUCCI é jornalista
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