O pedido de demissão do ministro Jorge Hage, da Controladoria Geral da União (CGU), em evento conjunto com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), apontou mais uma encrenca para a presidente Dilma resolver. Na ocasião, o ministro demonstrou a sua inconformidade com os recursos destinados ao combate à corrupção que sangra o governo. Com a decisão de anunciar a sua saída do governo, com destaque, nas comemorações do "Dia Internacional contra a Corrupção, Hage dá um tiro no pé do governo já acuado com tantas denúncias investigadas pelo Ministério Público e a Polícia Federal. O ministro é um dos remanescentes da equipe de Lula e, por doze anos, atuou a reboque das denúncias da mídia. A CGU, um dos mais importantes instrumentos de controle da corrupção, especialmente nos órgãos públicos, segundo Hage, se viu abandonada pelo governo que a deixou sem recursos e funcionários. Com quadro reduzido de especialistas nas áreas sob sua responsabilidade, a CGU foi desaparecendo como órgão fiscalizador, deixando o ministro como porta-voz das ações de outros órgãos, sempre na carona de informações amplamente divulgadas pela imprensa. O ministro disse que já deu a sua contribuição ao serviço público durante os doze anos que trabalhou na Controladoria e pensa em descansar. Hage é homem de confiança de Lula e não esperou ser demitido. Sabe que o ex-presidente está se organizando para retomar as rédeas do poder e precisará de auxiliares diligentes dispostos a formar o grupo que irá solapar as ações independentes da presidente Dilma. Durante a campanha presidencial, Dilma se esforçou para demonstrar que o secular tapete da corrupção que encobre crimes contra o erário, em seu governo, foi levantado e desvendou as falcatruas praticadas em conluio por companheiros, funcionários públicos, empreiteiros e marginais experientes em lavagem de dinheiro. As acusações, que hoje minam o governo, poderiam ter sido minimizadas se órgãos como a Controladoria Geral da União e o Tribunal de Contas da União tivessem sido ouvidos, quando indicavam as fontes de corrupção instaladas na administração pública. A indiferença aos avisos, hoje, mais parece conivência com o cuidadoso esquema de desvio de dinheiro público. Quanto mais se levanta o imenso tapete, mais sujeira é descoberta; e não são sujeiras da época de Cabral. Na verdade são atos praticados em tempos recentes, os quais, tal qual o ministro demissionário, o povo brasileiro está cansado de esperar o fim. Na sua fala, Hage mencionou que em 2014 houve um grande corte no minúsculo orçamento da CGU, o que dificultou ações que deveriam evitar desperdício e desvios do dinheiro público, deixando o órgão em situação de "penúria orçamentária". Por coincidência, o ano da reeleição da presidente Dilma. A CGU, fragilizada pelo próprio governo, se transformou no "Observatório da despesa pública", órgão criado por Hage com a finalidade de "antecipar as condutas ilícitas nas licitações", esta divisão da CGU cruza bancos de dados de setores governamentais e, curiosamente, não tem a participação das empresas estatais. Sem poder de controlar os atos da União, se não saísse, Hage continuaria sendo só o "Observador Geral da União". *PAULO CASTELO BRANCO é advogado www.paulocastelobranco.adv.b/
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