Para quem não conhece, aí vai o atemporal sermão do bom ladrão escrito em 1655, em Lisboa, Portugal, pelo padre Antônio Vieira. Fundamentado em informações do livro A arte de roubar, que circulava em Portugal desde 1640, atento, padre Antônio Vieira questionava em consonância com a sua vivência cotidiana os desmandos reais, não se fazendo de rogado proferiu inflamado discurso na Igreja da Misericórdia, em Lisboa, mostrando ao povo português como funcionava a roubalheira no Brasil-colônia. Não se contendo, em seu discurso mostrou como o dinheiro mandado para gerir a administração no Brasil-colônia era manipulado, seja para quem tinha concessões para lavras de ouro ou concessão para comercialização de escravos, gestores, administradores ou intermediários agentes da corte. Fossem quem fossem, todos roubavam na terra de Cabral. Indignado com escândalos no governo, riquezas ilícitas, venalidades de gestões, fraudulentas e desproporcionalidade das punições, com a exceção óbvia dos mandatários do século, padre Vieira usou o púlpito como arauto das aspirações públicas, à guisa de uma imprensa ou de uma tribuna política, para advertir os reis quanto ao pecado da corrupção passivo-ativa, pela cumplicidade do silêncio permissivo. Observa-se que em um lance profético mostrando o seu profundo entendimento sobre os problemas do Brasil ele ataca e critica aqueles que se valiam da máquina pública para enriquecer ilicitamente. O interessante nesse contexto é que o sermão do padre Vieira apresenta uma visão crítica sobre o comportamento imoral da nobreza daquela época, não muito diferente do que ocorre hoje no Brasil, não é mesmo? Por isso, um discurso bastante atemporal, não? Como dizia padre Vieira em seu discurso, Levarem os reis consigo ao paraíso os ladrões, não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é, em vez de os reis levaram consigo os ladrões ao paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno. Concisa, não? Nesse sermão padre Vieira faz um diagnóstico, desnudando os desmandos e a mistura dos interesses públicos e privados que infestava e infesta a administração pública brasileira desde o inicio da colonização do país. Todavia, em pleno mês de agosto de 2012, uma luz amarela começou a acender contra a corrupção na terra de Cabral. Com maestria e altivez, a suprema corte brasileira lança verrina contra esses energúmenos que usurpam o dinheiro público. Juridicamente e de forma cabal, percebe-se que a coisa vai mudar e que não haverá mais espaço neste país para a bandidagem. Começamos com a lei da Ficha Limpa e agora o Mensalão. Estamos pressentindo uma nova primavera se aproximar do país, estamos começando a ver de verdade uma luz no fim do túnel, com possibilidade de que ela permaneça para sempre brilhando. Porém, para que essa luz não se apague, é fundamental também a ativa e efetiva participação da sociedade brasileira no processo, eliminando de vez a recrudescência deste mal no Brasil. Ao aplicar a lei aos corruptos do Mensalão, a suprema corte brasileira demonstra que não tolera o malfeito com bens públicos e com a dignidade humana. Com maestria, procura eliminar esse asqueroso mal que mancha nossa cidadania e começa-se, assim finalmente, a ver o fim dos vivaldinos. Queira Deus! O Estado brasileiro não tolera o poder que corrompe e nem tolera o poder que se deixa corromper, Celso de Mello, ministro da Suprema Corte Brasileira. Parabéns aos ilustres senhores ministros da suprema corte pela empreitada em foco, em busca da decência e da justiça social, fartamente citada por vossas excelências quando da condenação dos bandidos do Mensalão, que usurpam a dignidade humana e o dinheiro público do país. *ROMILDO GONÇALVES é biólogo, mestre em Educação e Meio Ambiente, perito ambiental em Fogo Florestal e prof./pesquisador da UFMT/Seduc
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