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ARTIGO
Quarta-feira, 18 de Maio de 2011, 21h:22

EDUARDO PÓVOAS

O que já tivemos - III

Um ano após escrever O que já tivemos I e II, eis que volto, ao mesmo lugar com o mesmo amigo, com a mesma carne de sol e com a mesma cerveja para prazerosamente escutar de Antonio Rosa, o maior conhecedor do nosso Pantanal, mais histórias dessa nossa esplendorosa região que por pouco não se transforma em Território. Aposto que pouquíssimos sabem o que me conta esse querido amigo, filho e morador por longos anos da localidade de Biguazal (acima do Porto Cercado) e que deveria ser consultado quando alguma ação de governo fosse direcionada a essa região, pois sua experiência e vivencia da planície, o credencia a opinar. Nossos “causos” invariavelmente começam e terminam sobre um assunto que nos fascina que é o pantanal. Sabedor que sou do conhecimento e do profundo amor que meu amigo tem por ele, não titubeio sempre que juntos estamos, em “provocá-lo”. Descalço, cortando caprichosamente uma carne de sol que na panela receberia pedaços de mandioca seca, meu amigo me pergunta se eu sabia que nos rios Cuiabá e Paraguai já “desfilaram” embarcações movidas à roda (aquelas parecidas com as do Rio Mississipi nos Estados Unidos). Claro que disse não! Pois é, continua ele, tivemos algumas, mais me lembro muito bem da “Cáceres” e da “Guaporé”. As rodas eram tocadas por caldeiras através da lenha comprada dos moradores da beira do rio, e seus cascos eram de ferro. Cada uma viajava com mais ou menos 15 tripulantes. Essas rodas eram localizadas bem no meio das embarcações e jogavam água bem longe, conta meu velho amigo com os olhos marejados de lágrimas, como que querendo dizer nesse gesto que aqueles foram os melhores dias da sua vida. Faziam à linha Cuiabá-Corumbá-Cáceres rebocando chatas transportando cargas e cimento. Vinha nesses navios o mate engarrafado e gaseificado produzido em Corumbá, que tive o prazer de tomar esse delicioso refrigerante junto com meu pai na Pastelaria do Kinjo na Rua do Meio. As mercadorias vinham de São Paulo até Campo Grande e aí de trem para Corumbá para pegar os barcos vindo para Cáceres e Cuiabá. Ao se aproximar das casas dos ribeirinhos, essas embarcações tocavam suas buzinas de ar para avisá-los que estavam chegando. Conta-me que Corumbá nessa época era a cidade mais movimentada de Mato Grosso, graças a esse comercio intermitente. Algumas vendiam farinha de trigo, guaraná em bastão, sabão, bolachas (inclusive a famosa apelidada de “bosta de burro”) fabricadas em Corumbá. As duas tinham camarotes e ainda levavam passageiros, tanto na subida como na descida do rio. Este meio de locomoção usado com muita freqüência nessa época, fazia parte da vida do cuiabano, havendo uma ligação fortíssima entre o rio, as embarcações que chegavam até o final da Rua 15 de Novembro, e o nosso povo. A embarcação “Cáceres” ainda fazia a limpeza do rio, retirando paus ou outras coisas que viessem a atrapalhar a navegação. Imagine o batimento cardíaco deste velho e querido amigo após essa narrativa. O meu estava descompensado, imagine o dele que foi personagem vivo desta história. Aos que não sabem da importância do Rio Cuiabá para a vida da nossa cidade, saibam que sem ele dificilmente seríamos hoje o que somos. Respeite-mo-lo! *EDUARDO POVOAS- cuiabano [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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