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ARTIGO
Quarta-feira, 05 de Junho de 2013, 20h:22

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

O professor 1,99

Em meu artigo anterior – “Um tipo de enterro” –, cometi deliberada omissão. Antes de expô-la, relembro que em tal artigo tratei do absurdo que vem ocorrendo nas edições do ENEM, com ênfase na correção das redações. Para isso, aproveitei o deboche exibido pelo programa Pé na cova (Globo: 23/05). Por entender que aquele programa humorístico apresentou grave denúncia, transcrevi, ipsis verbis, fragmentos de diálogos desenvolvidos entre as personagens – todas iletradas – que “corrigiriam” as redações. Agora, expondo a omissão, destaco outra parte dos diálogos; quiçá, a mais importante do conjunto que ridicularizou o processo de correção de redações do ENEM. O diálogo ocorreu na cena em que o mecânico Marcão (Maurício Xavier), que se traveste de Markassa quando necessário, adentra à sala da casa de Ruço (Miguel Fallabela) para ocupar seu espaço na mesa de correção das provas. Quando isso ocorre, Darlene (Marília Pêra) lhe pergunta se “tinha que vir montada”. Markassa – caricatamente maquiada – usava um vestido, bem ajustado ao corpo, que fazia lembrar uma oncinha. Sua peruca era a de cabelos longos e brancos. Eis a resposta à pergunta de Darlene: - “É claro: vim assumir meu papel de mestra, de professora. Não podia aparecer aqui vestida de mecânico, né? É outra entidade”. Eis o remate de Marlene: - “Tanto faz”. “Tanto faz” – na lógica de eventuais comparações – é uma expressão que usamos em situações de relevar diferenças; é a marca da suprema indiferença. É claro que para ser mecânico são necessários conhecimentos e habilidades específicas. Todavia, há enormes diferenças entre o trabalho de um mecânico e o de um professor, mormente do profissional de língua portuguesa, que é o maior responsável por corrigir redações; de tal forma que a comparação em si nem caberia, tamanha as diferenças das habilidades e dos conhecimentos acionados tanto por uma quanto por outra profissão. No entanto, a comparação é feita; e na comparação eclode a diminuição do papel social do professor em relação ao do mecânico, que poderia ser um soldador, um faxineiro, um pipoqueiro... Enfim, profissionais que vivem dignamente, mas sem precisar de conhecimentos aprendidos na academia. Da ficção humorística à realidade, resta-nos saber se a resposta – “tanto faz” – de Marlene a Markassa já não seja algo solidificado que a sociedade – talvez, inconscientemente – pensa do professor. De minha parte, digo que sim; que, em geral, a sociedade já não atribui mais a importância que atribuía aos professores num tempo não tão distante. Se isso é verdadeiro, resta-nos saber por quais motivos o professor vem deixando de ter a importância que tinha. Arrisco uma hipótese: o pouco conhecimento acadêmico que a maioria já expõe – a começar pelo uso chulo da língua portuguesa – é agravante nessa desqualificação. Quando um aluno não percebe diferença entre o seu falar e o falar de seu professor, tudo está comprometido na base da relação ensino-aprendizagem. Outro fator de desdém ao professor – aliás, o mais importante e precedente de todos – é a humilhação econômica da categoria. Pontualmente, corrigir redações do ENEM pelo valor que o MEC paga – pouco mais de 1,99 por redação corrigida – é assinar atestado de indigência econômica e/ou acadêmica. É humilhante. Por isso e por outras não acredito e dificilmente acreditarei algum dia na seriedade do ENEM. Diante do exposto, salvando raras exceções, concluo: um bando de colegas indigentes está definindo o perfil e o rumo da universidade brasileira. Isso é grave! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Ciência da Comunicação-USP Prof. de Literatura-UFMT

Edição EDIÇÃO 16967




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