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ARTIGO
Segunda-feira, 28 de Julho de 2008, 21h:32

EDUARDO MAHON

O patrulhamento na Academia de Letras

Felizmente, os artigos ainda repercutem e, nessa certeza, a polêmica ainda pode construir ou destruir determinadas práticas, porque resta uma esperança às letras que têm, elas mesmas, vocação para a transformação. Era isso que, provavelmente, o Editor da Ilustrada do Diário de Cuiabá tentou fazer ao escrever artigo “As letras e a homofobia”, denunciando suposta prática de homofobia no seio da Academia Mato-grossense de Letras. Uma pena que o articulista não teve respeito com o leitor de declinar o nome dos acadêmicos que rezam pela cartilha da discriminação. Daí que a crítica ficou à socapa, bem ao modo de uma lamentável insinuação generalizante. Deveras, a Academia de Letras é sempre vista como reduto do conservadorismo o que somente revela a ignorância de quem analisa o fenômeno de forma tão simplista. Porque a história das idéias usa-se das letras para ser mais ou menos de vanguarda. O fiel da balança não é uma instituição e sim as pessoas que nela habitam e promovem rituais de inclusão ou exclusão da diversidade. Pergunta-se: aceitam-se candidatos às cadeiras vagas, apenas porque são gay´s, como uma espécie de quotas? Por certo que não. Da mesma forma, a recíproca é verdadeira – ninguém está autorizado a descartar um candidato, apenas por sua orientação sexual, origem, cor, religião e opção partidária. Tais posições maniqueístas, disfarçadas de um “ativismo” de gênero podem agudizar um elemento que nunca foi verdadeiramente crônico. A fermentação de tais insinuações quer dar um tom alarmista ao que não é, de fato, uma variável real no processo de escolha. Lembremo-nos que a diversidade sexual acompanha pari passu o fervor cultural e, de outro lado, houve e há tantos reacionários ilustrados pelas mais variadas ideologias. Daí se concluir não ser o critério sexual um fator relevante nem para incluir, muito menos para excluir. Ao contrário do que deseja o Editor da Ilustrada, não há como mensurar quem é mais ou menos “competente” para o ingresso, porque a concorrência não é um mero concurso literário, como pensa tanta gente desinformada. É, como já disse em meu discurso de posse, a consagração do trabalho cultural ou uma aposta acadêmica naquele que foi recentemente eleito. Não deixa, claro, de se configurar também uma mensagem para a sociedade sobre os paradigmas que a própria Academia quer para si. Se o candidato é ruim, o demérito é todo da Academia e se é bom, o mérito é partilhado. Ocorre, na Academia de Letras, uma visão estreita por parte dos candidatos. A vitória daquele que obtém maior número de votos não representa uma derrota da obra, desvalorização profissional ou um demérito pessoal do derrotado. É preciso parar com a afetação da derrota. Aliás, o imortal geralmente não vota “por exclusão”, fazendo oposição direta a um nome em função da biografia, da opção sexual, religiosa, política; prefere, ao contrário, votar ativamente no candidato que desperta mais simpatia intelectual ou que mereça ser reconhecido por aquele eleitor. Portanto, geralmente, o que ocorre não é um “voto engajado de protesto” contra alguém e sim um voto a favor de um autor, romancista, cronista, historiador, jornalista, jurista, crítico literário ou ativista cultural. O resto são “teorias da conspiração”. Impossível “objetivar critérios” para a escolha de um nome para a Academia de Letras. Não só é ingenuidade, mas também fascismo. Essa “objetividade cartesiana” pode causar exclusões a priori; ademais, quem elaborará tais critérios? Noutras palavras – vira uma autocracia ainda pior do que a criticada. Finalmente, no dia em que forem definidos “critérios” para eleição, quem poderá eventualmente alterá-los? Esse pseudo-parâmetro “formatarᔠuma longa safra de acadêmicos que será homogênea e não democrática. Por conseguinte, abandonemos a “seletividade burocrática”, essa sim com repercussões perigosas para a democracia multicultural. Um tiro no pé da diversidade. Resta alguns recados para dentro e fora da Academia. De minha parte, sempre defendi publicamente a abertura imediata de todas as vagas remanescentes na AML. É sabido que temos talentos culturais notórios que não se candidatam por medo da humilhação de não se verem eleitos. Poderíamos bem aproveitar um contingente substancial de vagas para uma grande composição interna e externa, celebrando a cultura mato-grossense, abandonando a autofagia das eleições a conta-gotas para arejar a Casa Barão de Melgaço. Em remate, lamentando alfinetadas indiretas e generalizantes por parte do Editor da Ilustrada, ao não apontar peremptoriamente acadêmicos ligados à discriminação, sejamos bem claros – qualquer pessoa que negue acesso numa instituição ou local público ou particular, por seus atributos pessoais relacionados à raça, religião e orientação sexual comete crime e deve ser tratado como criminoso. Portanto, o posicionamento da Academia de Letras é pela pluralidade, pelo livre acesso, rechaçando qualquer tipo de discriminação, suposta, eventual e francamente minoritária. Ainda que reconheça a intenção positiva da crítica lançada à Academia, provocando alguns a rever conceitos e pré-conceitos, deixo assentado – não aceitamos pressão e patrulhamento de qualquer natureza. * EDUARDO MAHON é advogado e membro da Academia Mato-grossense de Letras

Edição EDIÇÃO 16962




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