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ARTIGO
Terça-feira, 16 de Setembro de 2008, 20h:50

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

O papel social da contestação

Em recente pesquisa, Lula obteve quase 65% de aprovação: recorde entre os presidentes civis pós/64. Logo, não pertencer a essa maioria é navegar contra a maré. Pois de minha parte, assim me encontro, ainda que pudesse surfar na mesma onda. Na verdade, hoje, eu nadaria de braçada junto com vários "companheiros", caso tivesse atirado princípios no lixo e me proposto ao ludíbrio pelo discurso. Afinal, além de já ter aprendido a me expressar razoavelmente na oralidade e até na escrita, pertenci ao PT, infelizmente. Após esse registro, digo o que pretendo: ponderar que praticamente nada são flores, muito menos na educação formal; aliás, esse setor nunca esteve pior. Para as considerações, restrinjo-me à universidade. Junto a mil conveniências, uma onda de adesão ao governo neoliberal de Lula/PT instaurou-se nesse espaço, tornando-o paupérrimo nas críticas política e acadêmica, além de irresponsável socialmente. Nas universidades, muita gente tem ajudado o governo a destruir os focos de resistência e contestação para impor a lógica do mercado a seus interesses próprios. Um desses focos é o ANDES-SN (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior). Como um dos últimos sindicatos combativos do país, sua luta histórica centra-se na defesa da educação pública, de qualidade, gratuita, laica e socialmente referenciada; ou seja, tudo que o governo e grupelhos de docentes - meramente corporativos - não querem. O mais recente ataque ao ANDES se deu em 06/09, na sede da CUT (central sindical do governo). CUT e governo formalizaram (ilegalmente e com violência) outro sindicato de docentes (o Proifes), mas somente das federais. Esse aglomerado de professores foi derrotado nas últimas eleições internas do ANDES. Após essas derrotas, o Proifes forjou-se dentro do MEC. Lembrando: o último e esdrúxulo acordo salarial dos docentes das federais já foi assinado por esses "sindicalistas" pelegos; nem eles comemoraram, tamanho foi o ridículo do resultado. Fizeram boquinha de siri! Já causaram danos. Ao Prof. Roberto Leher (UFRJ), à CUT interessa o Proifes, "pois, além de servir de correia de transmissão do governo, abre caminho no serviço público para o recolhimento compulsório do imposto sindical, atualmente, não efetivado pelas entidades sindicais democráticas, como o ANDES, nascido em plena e contra a ditadura militar”. A Assembléia de criação do Proifes, relatando Leher, confirmou os piores temores. "O edital de convocação estabelecia o início para às 15h. Desde o meio-dia, professores contrários ao desmembramento do ANDES (que tem mais de 50 mil sindicalizados) constataram que os portões estavam fechados; quando muitos docentes chegaram à sede da CUT (que cabe pouco mais de 100 pessoas), às 14h, o aparato de segurança estava montado. Três linhas de seguranças impediam o livre acesso dos mais de 200 docentes - de 36 universidades - que desejavam se manifestar contrários ao desmembramento. Os seguranças deixavam entrar apenas um professor por vez... Depois, o docente tinha de se cadastrar... Em seguida, encaminhava-se a outra mesa para assinar o livro de presença e ser submetido à minuciosa revista corporal. Máquinas fotográficas, filmadoras, celulares e gravadores foram apreendidos; não poderia haver provas do que se passaria na Assembléia... Tudo isso levava em torno de 10 minutos por professor. Nesse ritmo, seriam necessários cerca de 3h e 30min. Enquanto os docentes contrários teriam que entrar a conta-gotas, o aparato, internamente, já havia sido acionado e o complexo processo de deliberação de criação do sindicato, do estatuto e de nova diretoria foi feito em exóticos 15 min.". Até voto por procuração houve. Um desrespeito à democracia sindical. Essa situação - para Leher - "é a maior intervenção governamental nos sindicatos desde a ditadura empresarial-militar de 1964. Mas diferente de então, agora, isso é operado em conluio com as maiores centrais sindicais. Nesse caso, a constituição do feixe sindicato-governo-trabalhadores-patrões, que caracterizou o fascismo, não é somente uma analogia vazia: é o ovo da serpente que ameaça a democracia no país". Como na universidade não há menores de idade, que todos saibam o que estão fazendo e a quem estão servindo. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura/UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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