O nó górdio era um enigma que se apresentava aos homens da Antiguidade, desafiando a argúcia, a inteligência e a capacidade de cada um, prometendo-se àquele que ousasse elucidá-lo, desatá-lo, a conquista da Ásia Menor. Dizia a lenda que o rei da Frígia morreu sem deixar herdeiro e que, ao ser consultado, o Oráculo anunciou que o próximo rei chegaria à cidade num carro de bois. A profecia foi cumprida por um camponês, de nome Górdio, que foi coroado. Para não esquecer de seu passado humilde ele colocou a carroça, com a qual ganhou a coroa, no templo de Zeus, e a amarrou com um nó a uma coluna, nó este aparentemente impossível de desatar. Górdio reinou por muito tempo, e, quando morreu, seu filho Midas assumiu o trono. Midas expandiu o império, porém não deixou herdeiros. O Oráculo foi ouvido novamente e declarou que quem desatasse o nó de Górdio dominaria toda a Ásia Menor. O nó górdio remonta ao século VIII a.C. Quinhentos anos depois, em 334 a.C., Alexandre Magno se viu desafiado a desatá-lo. Após uma minuciosa análise, desembainhou a espada e cortou o nó górdio. Ao cortá-lo e não desatá-lo, Alexandre não cumpriu o desafio, que, dizia a lenda, daria a quem o fizesse o domínio de toda a Ásia Menor, que ele conquistou, mas teve uma morte prematura, aos 33 anos. Assim a sua vitória teve uma curta duração: ele praticamente não desfrutou do seu triunfo. A questão básica é que não adianta usar de esperteza. E isso vale para tudo na vida. Cada um de nós tem um nó górdio para desatar. E não adianta usar de estratagemas, buscando soluções paliativas, dar um jeito, que não vai resolver a questão. O nó tem de ser desatado mesmo. E com muito conhecimento e sabedoria. A questão é complexa. Só o fato de saber da existência desse nó, desse enigma, já nos dá uma vantagem muito grande, pois passamos a entender uma realidade que a poucos é permitido conhecer. A decifração do enigma não tem tempo para ser elucidada. Pode demorar milênios. Mas, fatalmente, chegará o momento em que cada um se verá confrontado com essa situação. A preparação para esse momento culminante leva muitas encarnações. Ou não! Como tudo na vida, depende de cada um. Da sua formação, do seu trabalho interior, do seu autoconhecimento. William Shakespeare já disse por intermédio de Hamlet: Há mais coisas entre o céu e a Terra, do que supõe nossa vã filosofia, sintetizando dessa forma magistral um entendimento dos grandes e variados desafios que todos nós devemos encarar. Se compreendes, as coisas são como são; se não compreendes, as coisas são como são. Este princípio da ciência esotérica nos mostra que não adianta fugir da questão. O fato de não aceitarmos ou não compreendermos os mistérios da vida, da existência, não nos desonerará, não nos livrará dos seus efeitos. Assim, por uma questão de inteligência, é melhor encará-los mesmo que isso represente algo aparentemente insuperável. Porque na realidade todos nós temos também o conhecimento indispensável para superar qualquer situação, condição que nos foi dada pelo nosso Pai Altíssimo. Mas é preciso ter a coragem e a confiança para não fugir dos problemas e resolvê-los. Um dos primeiros passos é começar a nos desligar dos laços que nos prendem às mais diferentes religiões. Porque todas se apresentam como o único caminho. No livro Aos pés do Mestre, foram apresentados a Krishnamurti os quatro passos que levam ao caminho da libertação: discernimento, desapego, boa conduta e amor. Discernimento é a capacidade de decidir o que fazer ou não fazer. Desapego é a libertação de todas as formas de apego: religião, família, trabalho. O que não quer dizer que devamos desprezá-las. Mas usar o discernimento. Boa conduta é a ação consciente e verdadeira que orienta todos os nossos atos. O amor é o elemento que coroa tudo isso. Estes conceitos aqui apresentados são fruto de uma investigação e meditação que ao longo da minha vida tenho praticado e que agora compartilho com os meus leitores. *HEITOR FREIRE corretor de imóveis e advogado.
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