ARTIGO
Sábado, 07 de Junho de 2014, 13h:46
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BENEDITO PEDRO DORILEO
O Mixto octogenário
No dia 20 deste belíssimo maio, o Mixto Esporte Clube atingiu os seus 80 anos de vida, só menos idoso que o Clube Esportivo Dom Bosco, fundado em 4 de janeiro de 1925 no Lyceu de Artes e Ofícios, depois Colégio Salesiano São Gonçalo, que poderá, no vindouro 2015, comemorar os seus 90 anos de existência. O natalício mixtense fica na lembrança de quem ama as tradições esportivas mato-grossenses, pois sem celebração condigna, ora por circunstâncias internas, ora pela voragem da Copa do Mundo no Brasil, contraditória socialmente e desastrada pelo excesso de consumo financeiro. O futebol é o esporte mais popular, por isso um singelo estádio é mais descontraído e de menos custo para o torcedor, escorchado pelo preço do ingresso em estrutura sofisticada com aparato tecnológico; ainda que o progresso o esteja exigindo. Porém, é razoável que o tamanho do estádio seja compatibilizado com a necessidade do uso. Quando vemos jovens brasileiros exibindo camisa das equipes do Barcelona ou do Chelsea FC da Inglaterra, percebe-se que: de um lado há a universalização dos valores esportivos, de outro uma certa indiferença para com o nosso futebol tupiniquim. Existe um fenômeno a ser esclarecido. Compõe a nossa atual seleção de jogadores que somente têm o berço aqui, mas em verdade são profissionais estrangeiros, quando o interesse está mais ligado à ascensão do câmbio do que na elevação da pátria. São sujeitos aos mercadores, aos empreiteiros. É impossível vibrar com o mesmo entusiasmo, como ocorreu, por exemplo, em 1958, com a seleção brasileira na Suécia, com atletas atuantes, nas equipes partícipes do campeonato brasileiro. Emoção de ver o adolescente, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, chorando quando selou no último minuto o 5x2 sobre a anfitriã, fazendo soar o grito de Brasil, campeão do mundo. O selecionado de Vicente Feola era brasileiríssimo, cada atleta era identificado a partir da camisa que usava, constantemente em nossos gramados, como Bellini (o capitão), Garrincha, Didi, Zagallo e outros. Havia a beleza da autenticidade, os clubes festejando cada herói, Assis Chateaubriand beijando a taça Jules Rimet, JK, o presidente da esperança, recepcionando a seleção nacional ainda no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. São outros os tempos do octogenário do Mixto. Já que foi impossível levantar campeonato, reviver a esquadra tricampeã de 1947, 48 e 49, com Dito, Uir, Pinto, Gerbes, Sá, Cajabi, Mingote, Chupapaia, Edgar Curvo, Leônidas e Uirton; nem o tetra de 1951 a 54, nem outros bi ou tetra, há um suspiro de conformação de que está vivo o Clube de Zulmira Canavarros, de Carlos Hugueney de Siqueira ou de Ranulpho Paes de Barros. Ter no coração uma equipe de tantas glórias é mais um estado de espírito, a reviver raízes históricas, sonhando com as cores, com os gols de Ruí ter ou de Pele Zinho deste, o olímpico, na vitória por 1x0 contra o Vasco da Gama no campeonato brasileiro de 1976. Ou lembrar as jogadas delirantes de tantos jogadores do passado do preto e branco da Cândido Mariano, o seu primeiro endereço. Ter na mente o desfile com a rainha do clube à frente portando a bandeira e mascote, como o foi o menino, Antero Paes de Barros. Ou ouvir os acordes do hino, criado ao piano, pela fundador-mor. Ou adentrar na livraria Pepe e encontrar Naly de Siqueira escalando o time para a próxima rodada. Ou ver Nhá Balbina comandando a torcida. Há um balaio de sentimentos que não morrerá. Não temos um obelisco celebrativo, porém mais importante seja, neste octogenário, levantado um busto do professor Ranulpho Paes de Barros, em seu centenário de nascimento, na praça do estádio Governador Fragelli, reinaugurado com o apelido de arena pantanal. Ele, o pai do Mixto Esporte Clube, o primeiro presidente da Federação Mato-Grossense de Desportos. Que esta herma possa inspirar o soerguimento do esporte em Mato Grosso. * BENEDITO PEDRO DORILEO é advogado e ex-reitor da UFMT