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ARTIGO
Terça-feira, 28 de Julho de 2009, 20h:33

GABRIEL NOVIS NEVES

O frio de Cuiabá

As crianças fazem coisas que só crianças entendem. Tinha sete ou oito anos e dois compromissos antes de ir à escola. Acompanhar o meu pai até o açougue do Baixote na Joaquim Murtinho para trazer a carne para casa, e passar na casa do tio Tinô pegar a chave do bar. O Bugre ia cedo ao bar para realizar os trabalhos de escritório. O casarão ficava fechado até a chegada dos funcionários. Eu até hoje não sei porque, catava todas as tampinhas de cerveja e refrigerante que encontrava no chão do bar, colocava em um saco e deixava no quarto do quintal da minha casa. Me aprontava e saia para escola. Esta cena foi diária por vários anos. Um dia o meu pai telefona para casa, perguntando se eu guardava as tampinhas que diariamente recolhia do bar. Disse-lhe que sim e tinha um quarto cheio. Ele me explicou: “Apareceu um moço de fora aqui no bar e perguntou se eu guardava as tampinhas. Ele quer comprar.” O mundo estava em plena segunda guerra mundial. Provavelmente iria aproveitá-las para reciclagem. Enchi sacos e sacos de tampinhas e o homem comprou. Foi o primeiro negócio que fiz em minha vida. O dinheiro recebido, para mim era uma fortuna. Coloquei em um envelope e guardei dentro do oratório, o lugar mais seguro da casa. Uma manhã Cuiabá amanheceu com baixa temperatura. O meu pai para economizar, mandava o Joãozinho barbeiro da Rua do Meio, a passar máquina zero em minha cabeça. Senti muito frio. Lembrei do meu dinheiro. Fui a Casa Mansur, na Rua de Baixo e comprei um lindo boné, com proteção para os ouvidos e que fechava em baixo do queixo. Os tempos passaram e esta semana fui premiado com um “invernito”. Bastou o termômetro acusar temperatura inferior a vinte graus para minha gente mudar de visual. Agasalhos de lã, de couro, botas, luvas e cachecóis. Alguns mais prevenidos carregam um guarda-chuva no braço para em caso de necessidade se proteger da gostosíssima garoa. O que mais me impressionou neste mundo visual que o frio me proporcionou foram as toucas. De cores as mais diferentes. Toucas só para proteção da cabeça, toucas com abas soltas para proteger os ouvidos e aquelas que abotoam embaixo do queixo. O porteiro do meu prédio, usa touca colorida do Ceará. A minha enfermeira comprou uma touca no Paraguaizinho. O motorista do ônibus também usa touca. Só deu touca neste frio. Desconhecia esta preferência que fez desaparecer os bonés e principalmente as boinas azuis. E a boina faz parte da nossa história. No início dos anos setenta a UFMT não possuía um local fechado para colação de grau, na época unificado. Realizávamos este ato acadêmico no estacionamento da piscina e quando o número de alunos era menor, na pequena e estreita rua do campus em frente ao antigo Centro de Ciências Humanas. Nosso sistema de ensino era semestral. Tínhamos duas colações de grau por ano. Geralmente os meses eram início de janeiro e a nossa preocupação era com as chuvas e julho com o vento frio do cerrado do Coxipó. Numa dessas formaturas de julho após a formação da mesa de trabalho, um forte vento frio nos incomodava e muito. A iluminação do local não era das melhores. O som, excelente para os discursos. O homenageado pelos alunos era o então Governador Frageli. Percebi que ele esfregava muito as mãos, e procurava proteção. Perguntou-me se ficava mal, colocar na cabeça a boina azul que trazia dobrada no bolso da calça. Absolutamente não Governador, respondi. Ofereci-lhe uma taça de vinho. Como bom italiano achou que era brincadeira minha. Chamei o garçom Alcides e mandei vir da reitoria duas taças de vinho. Uma para o Dr. Frageli e outra para mim. Frio em Cuiabá também é história. * GABRIEL NOVIS NEVES é médico é ex-reitor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16967




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