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ARTIGO
Terça-feira, 08 de Dezembro de 2009, 22h:42

GABRIEL N. NEVES

O envelhecer (final)

As famosas limitações dos idosos não existem se os mesmos encararem o fato como um novo ciclo. Se os cabelos estão prateados, vamos viver com os cachos prateados. Pintados, só servem para sujar a fronha do travesseiro. Papadas e bolsas nos olhos? Bem aventurados sinais de uma história longa. Botox para correção? Vou ficar a cara da Rogéria. Os lábios afinam-se com a idade, de tantos beijos de amor que não economizamos em nossa juventude. Isto é troféu. Os jovens têm lábios carnudos porque não tiveram tempo de gastar esta camada protetora da boca com beijos ardentes. Porque preenchê-los e apagar os nossos amores? A pressão arterial aumentou? Benditos vasos sanguíneos resistentes ao tempo, sem entupir ou romper-se. As mulheres só perdem com a idade, aquilo que sempre consideraram perdas – a menstruação. Na velhice, estão livres desta coisa chata, tão em desuso hoje com as histerectomias. Como é belo ouvir o depoimento de uma Fernanda Montenegro que vive da arte e da imagem, afirmar, que aos 80 anos nunca procurou alterar os traços que a natureza lhe deu. A maioria das pessoas que não entendem o envelhecer me transmite a imagem do gato na praia escondendo as suas porcarias. O envelhecer é saber se desfazer das nossas inutilidades para continuarmos com alegria de viver, num pequeno espaço comparado ao ninho vazio dos pássaros. Envelhecer não deve nunca ser utilizado para rever o passado. Isto clinicamente significa um futuro incerto. A saudade também não deve constar na cartilha dos envelhecidos. Saudade não serve para nada. O que foi bom, não volta mais. E o que de ruim passamos, pertence ao lixo do esquecimento. Saudade só faz a gente sofrer. A saudade é a casa da morte, e nós estamos vivos, embora, envelhecidos. Esta não será nunca a nossa residência. Tristão de Atayde, na sua imensa sabedoria cunhou: “saudade é a presença da ausência”. O idoso não deve ser tratado de uma maneira preconceituosa, como pertencente à melhor idade e ter direitos especiais, só porque tem 65 anos. O idoso não procura privilégios, mas felicidade. “Felicidade é alguém para amar, algo para fazer e algo para aspirar” (Poeta inglês). “Felicidade é um lugar onde você pode pensar, mas não pode fazer seu ninho”(Condessa francesa). Há tempos anotei estas verdades sobre o envelhecer: Enfim, envelheço quando o novo me assusta e minha mente insiste em não aceitar. Envelheço quando me torno impaciente, intransigente e não consigo dialogar. Envelheço quando meu pensamento abandona sua casa e retorna sem nada a acrescentar. Envelheço quando muito me preocupo, e depois me culpo porque não tinha tantos motivos para me preocupar. Envelheço quando penso demasiadamente em mim mesmo, e consequentemente me esqueço dos outros. Envelheço quando penso em ousar e já antevejo o preço que terei que pagar pelo ato, mesmo que os fatos insistam em me contrariar. Envelheço quando tenho a chance de amar e deixo o coração que se põe a pensar. Envelheço quando permito que o cansaço e o desalento tomem conta da minha alma que se põe a lamentar. Envelheço quando paro de lutar! * GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16966




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