Os monges medievais temiam todos os pecados, mas temiam particularmente a acídia, por eles chamada de demônio do meio-dia: aquele amolecimento que as pessoas experimentam quando o sol está a pino, sobretudo depois de uma lauta refeição. Outras tentações podiam ocorrer então, porque a preguiça o nome vulgar da acídia é, como sabemos, a mãe de todos os vícios. A cultura judaico-cristã sempre foi marcada por uma veneração ao trabalho. A Bíblia ordena que nos miremos no exemplo da formiga que, diferentemente da cigarra, dá duro o ano inteiro. A Reforma protestante passou a valorizar ainda mais a atividade produtiva e passou a integrar, como diz Max Weber, a ética do capitalismo. No começo da Revolução Industrial, os operários chegavam a trabalhar 14 horas por dia, e isso era considerado normal, ao menos pelos patrões. A fanática devoção ao trabalho foi incorporada por outras culturas. Os japoneses sequer têm uma palavra para designar lazer. Ainda em 1939, quando a semana de 40 horas já era regra na maioria dos países ocidentais, os japoneses trabalhavam em média 10 horas ao dia, seis dias na semana. Nem todos consideram o trabalho uma bênção. Paul Lafargue, que tinha a revolução na família era genro de Karl Marx , escreveu o livro cujo título copiei para este artigo: O Elogio da Preguiça. Um dia, diz Lafargue, a máquina libertará o homem para que este possa se entregar à felicidade proporcionada pelo lazer. Idéia semelhante defendia o filósofo Bertrand Russel em um ensaio de título parecido: O Elogio do Lazer. O socialismo não chegou a realizar tais sonhos onde foi implantado, os operários passaram a trabalhar mais, não menos (verdade que não era bem o socialismo imaginado por Marx, mas enfim). De qualquer forma, porém, a jornada de trabalho foi diminuindo, criando um problema: o que fazer com o tempo livre? Surge então algo que é uma contradição em termos: a indústria do lazer. Ou seja: alguns trabalham para que outros se divirtam. Disneyworld, por exemplo, emprega milhares de pessoas. Os trópicos tinham uma visão diferente do trabalho. O índio brasileiro jamais se submeteria à dura rotina laboral. Todas as tentativas neste sentido foram inúteis. Se as árvores lhe davam os frutos, se os rios lhe davam os peixes, se as matas lhe davam a caça, por que haveria o indígena de ganhar o pão com o suor de seu rosto? Uma visão que os modernistas recuperaram. Ah, que preguiça, exclama a todo instante o Macunaíma de Mário de Andrade. E Oswald de Andrade, autor do Manifesto Antropofágico, atualmente na crista da onda, defende o ócio, que não é a negação do fazer, mas ocupar-se em ser o humano do homem. A ciência veio, afinal, a dar alguma razão aos que defendem o repouso. A descoberta do relógio biológico, mecanismo orgânico que regula a alternância entre repouso e atividade, mostra que o lazer é necessário, e que a preguiça pode ser a expressão de nosso corpo reclamando um necessário descanso. Temos, sim, de trabalhar, mesmo porque o trabalho representa a marca que deixamos no mundo (e o contracheque no fim do mês, para aqueles que não estão desempregados). Mas chega um momento em que, como diz o poeta Ascenso Ferreira, a ordem é: Pernas pro ar, que ninguém é de ferro. * Gustavo Oliveira é diretor de Redação do DIÁRIO e escreve neste espaço aos domingos.
[email protected]