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ARTIGO
Quinta-feira, 16 de Abril de 2009, 20h:22

PAULO RONAN

O cara

Estou atrasado. O assunto está indo embora e eu continuo parado nele. Escrevo hoje, dia 16, mas minha cabeça ainda está lá no dia 02/04, no encontro do G20 em Londres. Momento histórico que não paro de pensar nele. Eu, um sujeito curioso, tenho tido sorte. Vi surgir a era digital. Vi o Programa Guerra nas Estrelas de Reagan. Vi acabar e vi surgir ditaduras. Tomei um fogo num boteco do Píer 17, no porto de Nova Iorque, ao lado, de onde se via e pouco tempo antes de desabarem as duas torres do World Trade Center. Vi surgir a China e morrer a URSS que cuspiu novos países como Ucrânia, Letônia, Estônia, Lituânia, Geórgia (terra de Stalin), Cazaquistão etc. Minha geração viu o desmonte da Iugoslávia e surgimento da Eslovênia, Croácia (da seleção que já chegou em um quarto lugar em uma das últimas copas com aquela camisa linda, quadriculada), Sérvia (o sonho da “Grande Sérvia, do século 19 ressurgindo à nossa frente), Bósnia, a Guerra dos Bálcãs, o prêmio em Cannes para Emi Kusturica, Croata fantástico que fez um belo filme falando da guerra do seu povo. E agora, em tempo real via internet, televisão, rádio etc, vimos surgir uma nova ordem mundial. É muito luxo. Muito presente para um simples curioso. Relembrando a história recente. O mundo da Guerra Fria, herdado da Segunda Guerra, era bem definido. De um lado os comunistas do leste europeu, Coréia do Norte e Cuba comandados pela Rússia. De outro os EUA comandando o pólo dos capitalistas, ou seja, além dele mesmo, o oeste europeu e o Japão. Ai vinha a periferia agrupada numa falsa alcunha de economias em desenvolvimento, rol em que éramos incluídos, e corriam por fora comunistas como China e outras ficções do tipo Albânia, Angola etc. E ainda tinha o movimento dos não alinhados, onde supostamente estaríamos juntos com Iugoslávia, Cuba etc, uma idéia interessante mas sem ninguém para levá-la adiante. Fim da Guerra Fria e fim do URSS. A China, que já tinha pontual e pragmática relação com os EUA desde 1972, a maior jogada de política internacional de todos os tempos comandada pelo Sr Henry Kissinger, o homem do departamento de Estado de Nixon, passou a jogar pesado nesta relação, assistiu de camarote e ajudou a pôr uma pá de cal no Império Soviético. O G7, reunião de EUA, seu satélite Canadá, os países industrializados europeus e Japão e que era a maneira de dar uma roupagem democrática a hegemonia e ao poder absoluto do primeiro dentro do pólo vencedor, virou G8, com o convite de passar a contar com a cambaleante Rússia, economicamente morta, mas com um arsenal atômico de muito respeito e que, na dúvida, era de bom grado trazê-la para perto. Hoje se entende claramente porque a China nunca quis participar deste clube. Queria ser ela sozinha o seu contraponto. A hegemonia capitalista e a tese do Fim da História iam bem até setembro do ano passado quando uma crise de confiança pôs em cheque todos ativos no mundo. Daí pra cá o medo de desintegração geral do sistema suscitou o surgimento de uma nova autoridade mundial. Uma espécie de quem passa agora a dar a última palavra. E Londres nos indicou claramente o que é hoje a nova ordem. Depois de sugerir que seria um poder compartilhado pelo G20, aquele G8 mais uma turma de emergentes, do tipo Índia, Brasil, Indonésia, Argentina, México, África do Sul etc. Eu meio que embarquei nesta. Até andei falando aqui. Mas pensando bem pode ir em frente este clube que tem como sócio um país que é um condomínio administrado por um casal? Não deu outra e Londres, apesar das notas oficiais e outras maquiagens, sinalizou para o G2, China e EUA, este último por conta do que ainda tem, e é muito, e o outro pelo que representa em termos de demanda. De gente para comer e trabalhar debaixo do chicote do glorioso Partido Comunista Chinês. Poucas horas antes do encontro, reservadamente, Obama e o Primeiro Ministro chinês sentaram e decidiram o nosso destino. A estória que a China vinha sugerindo de questionar a hegemonia do dólar foi esquecida. E em troca os EUA param de falar de reativar seu industrialismo da década de 50. Alguns rebeldes foram contemplados com migalhas, empréstimos, cafuné etc. Nós, por exemplo, com a conversa de “o cara”. Engraçado que ele acreditou. Então ficamos assim, eram oito comandados por um. Agora são vinte comandados por dois. Sá fazer as contas, mais democrático. * PAULO RONAN é economista [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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