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ARTIGO
Terça-feira, 04 de Janeiro de 2011, 19h:41

LUIS F. SABOIA R. FILHO

O abuso - (2)

Cito Rondonópolis, mais praticamente todas as cidades com hospital regional ou que possuem consórcio hospitalar assim procedem. Na minha modéstia visão, e como conhecedor do SUS, os hospitais regionais e outros do interior estão fazendo o Estado jogar dinheiro fora na média e alta complexidade cirúrgica. Outra nefasta consequência destas transferências do interior para Cuiabá é que elas produzem anomalias funcionais nos hospitais que atendem pacientes do SUS na Capital quebrando rotinas e normas internas. Outra grave consequência fica a população sem ter vagas nas UTI’s dos hospitais cuiabanos. Quem não tem capacidade não se deve estabelecer e não fique maltratando o povo induzindo estruturas judiciais a obrigar os hospitais de Cuiabá a um atendimento que teria que ser realizado lá no interior. É bem verdade, que algumas ocasiões a transferência para Cuiabá se faz necessária principalmente na área oncológica. Complicações médicas ou sequelas de tratamento no interior é transferência na certa para Cuiabá. Estas transferências intermunicipais, muitas vezes são totalmente irregulares, não obedecem às regras e normas estabelecidas pelo SUS através de Portaria do Ministério da Saúde, ficando o hospital e o médico de Cuiabá que trabalham em hospital SUS com uma responsabilidade enorme e difícil em poder tratar àquela complicação ou sequela. Fala-se em milhares de cirurgias eletivas que não foram realizadas, mas quando temos acesso a esta listagem fica patente que noventa por cento destas cirurgias são de pacientes do interior. É óbvio que os médicos que labutam na Santa Casa e nos outros hospitais no atendimento ao SUS, colocam resistência na realização destas cirurgias. Os médicos de Cuiabá nunca viram aquele paciente, não conhecem o quadro clínico dos pacientes, os exames estão com tempo de validade vencido e nenhum trabalho de assistência social está presente. Será necessário parar de fazer o atendimento cirúrgico dos pacientes de Cuiabá e região para atender os provenientes do interior, o que é uma missão impossível de ser realizada. E aí começa a incompreensão de burocratas leigos que sem sair de seus gabinetes não conhecem a realidade dos fatos. É importante dizer que também existem em Cuiabá médicos que trabalham em postos públicos que emitem a AIH Cirúrgicas sem responsabilidade de realizar a cirurgia eletiva necessária contribuindo para aumentar a fila de espera cirúrgica. Posso afirmar que os médicos do corpo clínico da Santa Casa produzem em média de quatrocentos e cinquenta a quinhentas internações mês, sendo que, oitenta e cinco por cento destas internações são cirúrgicas, isto torna a Santa Casa como o maior hospital cirúrgico eletivo do Estado de Mato Grosso. Em algumas vezes a burocracia quer colocar em cima da Santa Casa uma maior produtividade, ignorando a contribuição valiosa que a Santa Casa produz na área cirúrgica no Sistema Único de Saúde. Fala-se a boca pequena, que tem político com base eleitoral no interior com mais influência na Central de Regularização de Vagas que o secretário estadual e municipal. Se isso é verdade, não sei. Mas sei que existem nos gabinetes dos políticos pessoas que ficam especializadas em internar pacientes nos hospitais em Cuiabá, produzindo pecados para tantos. Esta é uma verdade que posso sustentar. E o mais triste desta situação é que não vejo entidades médicas manifestar ou se opor a estas nefastas práticas médicas acima descritas. Os hospitais e os médicos de Cuiabá que atuam no SUS são vítimas das circunstâncias nesse tipo de atendimento. Acredite quem quiser. A Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, sempre teve, tem e terá com esses pacientes do interior piedade. Na verdade, são pessoas pobres, inválidas, e muitas vezes, sofridas, não possuem recursos para tratamento de um plano de saúde e acredito que por isso mesmo, são discriminadas. São vítimas silenciosas, mas em algumas vezes, inconformadas pelos tratamentos recebidos, produzem demandas judiciais contra médicos e hospitais, algumas vezes têm razões, em outras não. * LUIS FELIPE SABOIA RIBEIRO FILHO, Provedor da Sociedade Beneficente da Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, Professor Adjunto 4 da Clínica Cirúrgica da UFMT, cirurgião há 35 na Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá

Edição EDIÇÃO 16967




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