ARTIGO
Segunda-feira, 28 de Julho de 2014, 20h:03
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ALECY ALVES
Não somos estatísticas
A violência, com sua frequência e variações de modelos de ação e crueldade, transformou-se em uma despreparada emocional para a cobertura de ocorrências policiais. Não me vejo mais diante de corpos estendidos no chão indagando autoridades policiais sobre quem é a vítima, se o autor foi preso e como o crime aconteceu, como faz, ou melhor, precisa fazer um repórter policial. Na verdade, confesso, nem penso nessa possibilidade de exercício profissional. Quando fico sabendo por terceiros ou leio sobre um crime, morte de jovens ou alguém assaltado, que teve uma arma apontada para a cabeça, por exemplo, vou muito além da cobertura da notícias em meus pensamentos. Ponho-me no lugar de quem sofre por aquelas mortes, de ambos os lados, independente da motivação do crime e de quem eram os envolvidos, criminosos ou probos. Saber que um jovem estudante matou outro jovem, também estudante, ontem pela manhã dentro do Terminal do CPA I, tocou-me profundamente. Não somos apenas estatísticas (este ano, até 30 de junho, 229 pessoas foram assassinadas e 3.500 assaltadas em Cuiabá e Várzea Grande) como levam a crer as políticas ou falta de políticas de segurança pública. Isso traz à minha mente o pensamento do filósofo Jean-Jacques Rousseau quando escreveu: não pertence ao coração humano colocar-se no lugar de pessoas mais ricas; só lamentamos no outros males de que não nos acreditamos isentos. Concordo! Esse despreparo, que prefiro tratar como sensibilidade, já era evidente quando atuava como repórter policial no início da carreira e pelos longos 10 anos seguintes. Daquela época, final da década de 80, recordo-me, como se fosse hoje, da reação da mulher que depois de dias de buscas encontrou o marido morto. Do solo, tomado por vermes, ela ergueu o corpo e começou a beijá-lo chamando-o pelo nome, sendo contida pelos policiais. Mantenho, sim, o gosto por outro tipo de cobertura jornalística policial, de crimes contra o patrimônio público, preferencialmente divulgar que esse ou aquele corrupto preso, julgado e condenado. ALECY ALVES é repórter