ARTIGO
Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009, 21h:13
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A
PAULO RONAN
Namíbia e Islândia fariam melhor?
Lembro da Eco-92. Vivíamos a Era Collor. Aliás, o Episódio Collor, porque aquilo não foi um governo, foi um episódio. Por sinal um dos mais estranhos da nossa história republicana. Era um governo pervertido, cínico, deslumbrado e com mais mil e um defeitos. Mas tinha meia dúzia de qualidades, e foram estas que o derrubaram. Abertura comercial do setor automobilístico e o fim da ditadura do cartel Fiat, Volkswagen, Ford e General Motors é sem dúvida a maior e mais importante decisão da nossa diplomacia no campo comercial de todos os tempos. A obrigatoriedade de os cheques serem nominais é a maior arma que hoje se tem no país contra a circulação de dinheiro sujo e o maior controle que as receitas estadual e federal dispõem para conter a sonegação. Está entre as medidas que acompanharam assessoriamente o Plano Collor naquele 15 de março de 1990. Está ai também a proibição dos fundos ao portador e que acabou congelando, sem a atuação direta do estado, milhões sem origem e que estavam enfiados nestas verdadeiras lavanderias legais. São ferramentas que mais tarde foram utilizadas pela CPI para cassar o mandato do próprio criador. Sinto um certo silêncio em torno desse episódio. A abertura comercial tem algum papel nisso tudo? São coisas que sinto que a intelectualidade não gosta e não quer discutir. A academia muito menos. Esta, inclusive quando alguém fala da roubalheira no primeiro governo Lula, responde com a tese de ser moralismo, de conspiração da elite etc. O ministro Tarso Genro, jurista internacional, inventou até a tese de que tudo não passa de inveja. Isso mesmo, inveja do Lula. Por inveja as turma inventou isso. Pode isso? Alonguei, volto à Eco 92. Meses antes de começar o evento o clima era de unanimidade ao seu redor. Eram a todo momento confirmadas presenças importantes. Vivia Collor momentos de deslumbre com a cena internacional (prefiro ser último lugar no primeiro mundo que primeiro no terceiro, lembram-se?) e o evento acalmava os movimentos para cassá-lo. Dias antes da abertura surge o maior de todos brasileiros no país democratizado. Betinho. Ele mesmo, um quase santo, um homem que - baleado pelo vírus HIV - empreendeu uma luta pela unificação do país em torno de homens comprometidos com nosso futuro. Sabia ele que somente o combate à fome, uma causa comum de todos, uniria os homens e as mulheres que prestam neste país. Esta bandeira tinha uma causa imediata que era mesmo matar a fome das pessoas (quem tem fome tem pressa, dizia). Mas tinha uma motivação macropolítica de união da geração surgida na luta pela democratização. Eis que ele surge e exige dos organizadores da Eco 92 uma agenda social. Confesso que no começo não entendi muito bem o que ele queria dizer. Depois ficou tudo muito óbvio. Falar de ecologia com o planeta cheio de desnutridos esquálidos e analfabetos era quase uma piada. Tinha era de dar educação e comida para esta turma e trazê-la para ajudar no movimento conservacionista. Foi um deus nos acuda no início, mas logo o tema foi inserido organicamente no encontro e suas palavras e sua campanha ganharam o mundo. Lembrei disso porque acho que esta campanha para fazer Cuiabá sub-sede da copa tem de ter uma agenda de apoio ao futebol local. Gosto de estádio. Mais ainda de futebol. Temos tudo para ganhar esta parada de Campo Grande. Não pelo arroz com pequi que empurraram nos suíços por aqui. Aqui tem maior vocação para potencializar e fazer de um jogo como Namíbia e Islândia, por exemplo, uma festa. Se perdermos para Campo Grande será pelo clima de insegurança e violência que estamos vivendo. Seria uma pena porque não podemos perder para aquela Ribeirão Preto que não deu certo. Serão três jogos e tudo voltará a ser como antes. Alguma cidade da Argentina ou do México mudou por conta de ter sido uma sub-sede da copa? Ou ter sido uma sede? Vou ao estádio quase todo domingo. Levo meu filho Zé Mário (seis anos, canhoto, atacante pela esquerda). Vi dois bons jogos este ano. Operário e Palmeiras aqui da capital. E Mixto e Luverdense de Lucas de Rio Verde. Na arquibancada ninguém; e isto é um decisão do público de não ir. Respeitemos. Mas também não vi nenhum movimento durante a semana para levar público ao espetáculo. Esta organização de sensibilização e luta pela copa bem que podia fazer alguma coisa. Formas existem. Aliás, nunca vi este povo no estádio. E tenham certeza de Namíbia e Islândia não farão nada mais que Mixto e Luverdense. Se nada for feito ninguém irá prestigiar um jogo (uma pelada?) como este em 2010. Vamos passar vergonha. * PAULO RONAN é economista