Jamais pude imaginar-te feita de uma de minhas costelas. De ossos de pouca carne não nascerias tão repleta de protuberâncias e contornos que simplesmente superam todos os patamares do belo. Míseros ossos nunca gerariam tanta graça e leveza. Vieste ao mundo para fazer dele encanto e beleza. Sei, penosamente sei, que não é e nunca foi fácil para ti caminhar onde só há força, bocas raivosas e visões pobremente fálicas. Foste tantas vezes crucificada por saberes o segredo da vida e queimada, em chamas medievais, porque sabias que de tuas mãos nasciam o ungüento, o pão e o vinho. É dolorido ser panacéia quando tudo quanto querem é sofrimento e morte. Imagino-te mulher operária tecendo fios intermináveis em fábricas insalubres do senhor burguês e tecendo vida em teu ventre. Tecias a seda que em tempo algum usarias e vidas que, com o tempo, fugir-te-iam das mãos para se perderem no mundo. Vejo-te, ainda que tímida, buscando teus espaços e direitos quando só valiam a verdade dos bigodes e costeletas abundantes. Enfim, chegara teu século de grandes conquistas. Colocaste em todos os ouvidos teu grito por milênios reprimido. Falaste tua luta, urraste teu gozo como nunca antes fora feito. Vencedora, teve, com os vencidos, a benevolência que apenas tu, dona da vida, sabes o verdadeiro sentido da palavra. Não gostaria de ter dito coisas que te fizessem lembrar de tuas angústias, de teus medos e de tuas feridas; mas era preciso que se mostrassem os espinhos para que se desabrochassem as rosas. Antes, prefiro embrenhar-me em tuas delicadezas; em tua tênue artimanha de existir, apesar do desamor e dos carinhos minguados. Naturalmente dionisíaca, sempre preferiste véus, nuanças e mistérios à concretude impassível masculina. Em teu lado da vida, ela só foi possível reinventada. Pelos teus olhares magnificamente indecifráveis, pela tua eterna capacidade de sorrir em meio às lágrimas e suavemente enxugá-las, pela maciez de tuas palavras que têm o poder de amainar feras e adormecer homens e pela infinita capacidade de amar é que te louvo. Bom poder deixar que as palavras brotem de mim como se fossem repetidas por muitos, melhor seria se marias e clarices as lessem nos quatro cantos de nossa Cuiabá porque saberíamos que todas estariam refletindo sobre a condição de ser mulher. Haveria muito o que dizer; todavia, duas palavras são essenciais e, necessariamente, precisam ser ditas: Obrigado e Perdão. Obrigado mãe Cida e a todas as mães. Obrigado Dione e a todas as companheiras. Obrigado, Analu, e a todas as filhas, por fazerem nossas vidas mais iluminadas e mais cheias de graças. Perdão, Maria, mãe de Jesus, Joana DArc, Dorothy Stang, Rosa Luxemburgo, Maria Taquara, Olga Benário, Rose Parks, Doninha Cintra e tantas outras que foram martirizadas, perseguidas, injustiçadas e mortas pela covardia masculina. Mulher, simplesmente mulher..., amanhã é o teu dia; porém, bem sabes que todos dias, assim como todas as vidas, são teus. A maior parte de tua estirpe tem o dia pra cansar e a noite pra sonhar. Que a luta e devaneio mostrem a importância da ternura que habita nos olhos teus, assim teremos amanheceres mais pródigos em alegria e felicidade. * SÉRGIO CINTRA é professor em Cuiabá e Várzea Grande
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