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ARTIGO
Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007, 19h:08

GONÇALO A. DE BARROS NETO

Morre jovem o que os deuses amam

Sob o título acima, preceito da sabedoria antiga, compartilho com os leitores algo sobre o poeta português Mário de Sá-Carneiro, que viveu seus momentos de genialidade entre os anos de 1890 e 1916, nascimento e morte de um dos maiores vultos da literatura mundial. Em homenagem a Sá-Carneiro, escreveu Fernando Pessoa: “No herói, no santo e no gênio os Deuses se lembram dos homens. O herói é um homem como todos, a quem coube por sorte o auxílio divino; não está nele a luz que lhe estrela a fronte, sol da glória ou luar da morte, e lhe separa o rosto dos de seus pares. O santo é um homem bom a que os Deuses, por misericórdia, cegaram, para que não sofresse; cego, pode crer no bem, em si, e em deuses melhores, pois não vê, na alma que cuida própria e nas coisas incertas que o cercam, a operação irremediável do capricho dos Deuses, o jugo superior do destino. Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao gênio, porém, é que verdadeiramente amam”. Nasce a 19 de maio de 1890, tendo perdido sua mãe dois anos após. Dos 14 aos 25 anos de idade, produz vastíssimo material poético (“Amizade”, “Beijos”, “Princípio” etc.) e, em 1916, antes de completar 26 anos, suicida no Hotel Nice, com arseniato de estricnina. Versos eternos simbolizam a inquietação do poeta ... “Perdi-me dentro de mim/Porque eu era labirinto,/E hoje, quando me sinto,/É com saudades de mim.//... Para mim é sempre ontem,/Não tenho amanhã nem hoje:/O tempo que aos outros foge/Cai sobre mim feito ontem.//... Como se chora um amante,/Assim me choro a mim mesmo:/Eu fui amante inconstante/Que se traiu a si mesmo.//... As minhas grandes saudades/São do que nunca enlacei./Ai, como eu tenho saudades/Dos sonhos que não sonhei!...” (Dispersão). Sá-Carneiro devia ser meio assim, desgostoso com a mediocridade, um tanto peixe nadando no rio que nunca chega ao mar. Queria mudar algo, mas queria perguntar-lhe o que achava. Perdeu. Não se cobra pérolas das primaveras, que só tem espinhos para dar. Quem sabe, se acaso escolhesse driblar e navegar, não teria sobrevivido à ânsia de consertar? Como é bom, meus amigos (e inimigos, como já vi escrito por aí!), ousar-se sonhar, e saber que mesmo os gênios, também cansaram de acreditar. De tudo, “...Não perdi a minha alma,/Fiquei com ela, perdida.//Fui alguém que passou...” (Dispersão – Mário de Sá-Carneiro). * GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é juiz de Direito em Mato Grosso e escreve às terças-feiras no Diário [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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