ARTIGO
Segunda-feira, 04 de Maio de 2009, 21h:05
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JOSEMAR HONÓRIO BARRETO
Memórias de um cuiabano honorário
Nasci no Estado de Goiás, mas já na adolescência mudei-me para Brasília. Realmente foi uma mudança muito atribulada, pois deixei para trás meus amigos de infância, meus parentes e a minha cidade, que realmente era o meu lar. Estudei na capital federal por quatorze anos, quando na época existia o curso ginasial, o colegial e depois o universitário, sendo este último na UnB, onde me formei em medicina. Quando já estava acostumado com aquela cidade sem esquinas e sem um bom lugar para encontrar os amigos, saí de lá. Na verdade, até já gostava daquela belíssima cidade, sonhada por D. Bosco, projetada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa e executada pelo esforço do grande Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira e de milhões de brasileiros, oriundos principalmente do nordeste, centro-oeste e sudeste. Foi exatamente naquele momento histórico de minha vida, que me mudei para Cuiabá, a capital do grande Mato Grosso. Vim, confesso, em busca do Eldorado que tantos falavam pelo Brasil afora. Vim em busca de um lugar para trabalhar com honestidade e ganhar o pão, e se possível ficar rico e voltar para meu lar, onde viviam meus pais, irmãos, toda parentela e os melhores amigos. Logo que cheguei chamaram-me de pau rodado (comparação feita com aqueles galhos de árvores que se quebram durante uma tempestade e rolam pela enxurrada, sem um lugar para se fixar). Não gostei nada do nome, pois nunca me considerei como algo assim, mesmo porque nenhum pau viaja pela Vasp. Minha auto-estima era, sempre foi e é ótima. Na verdade iniciei um processo de rancor pela cidade, que ao mesmo tempo me acolhia e me preteria. A revolta era maior porque me considerava um migrante cheio de valores e que também trazia o progresso. Vivi por alguns anos nesta dúvida. Não sabia se retornava ao lar, ou se permanecia em Cuiabá. O retorno era impossível pelo orgulho ferido, pois ainda não era rico e conforme prometera a mim mesmo, somente voltaria vitorioso. (Muito embora o que ganhava, dava para sustento da minha família e ajudar algum irmão sofredor). Hoje eu sei que tudo isto não passou de sonhos de um jovem, que usou e abusou das fantasias para poder sobreviver neste mundo hedonista e consumista. Como no momento estava me acostumando à cidade, e já que não encontrara o Eldorado, fui em busca de Pasárgada como no velho poema: Vou me embora para Pasárgada. Lá sou amigo do rei. Terei a mulher que eu quero na cama que escolherei. Na verdade encontrei uma linda cuiabana, que após seis meses de namoro eu me casei. Deste matrimônio, após dois anos, vieram completar a família dois filhos maravilhosos. Pronto, virei cuiabano, com esposa, filhos, parentes e amigos nesta terra verde de Rondon. Sei que nunca serei cuiabano de chapa e cruz, mas sei que sou de coração, pois quando saio de férias para outro estado, uma saudade imensa, após quinze dias no máximo, toma conta do meu ser. É que estou louco para voltar para Cuiabá, porque agora cheguei à terceira e última fase: o amor por Cuiabá. Fico sempre a imaginar o que acontecerá quando minha vida chegar ao fim? Fico pensando em pedir para ser cremado, e que minhas cinzas sejam divididas em quatro partes. Uma para ser lançada na lagoa da minha cidade natal. A segunda no lago de Brasília. A terceira no mar de Copacabana. E por final a última no Rio Cuiabá. Nunca serei pau fincado, mas farei parte para sempre de todos os lugares que amei. * JOSEMAR HONORIO BARRETO é médico-psiquiatra