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ARTIGO
Segunda-feira, 01 de Dezembro de 2014, 19h:57

ALTEMIR DALPIAZ

Mediano

Todos os caminhos da educação têm apontado para um horizonte. Nesse horizonte se prevê um aluno formado para exercer uma profissão, sendo útil ao mercado de trabalho e realizando assim, seus desejos, e muito provavelmente, os desejos daqueles que os cercam. Depois de formado ter sua casa, comprar seu carro e aos domingos almoçar na casa da sogra. No final do ano comprar um presente de natal, encher a casa de luzinhas que ficam piscando, baixar a música da Simone e comer um peru. Que culpa tem o peru? Uma semana depois se vestir de branco, encher a mesa de frutas, dar três pulinhos, comer um porco e fazer selfies para provar que você é um terráqueo. Que culpa tem o porquinho? No começo do ano parcela a passagem aérea em dez vezes, viaja para o Nordeste, esquecendo que falou mal de todos os nordestinos na eleição presidencial. Volta da viagem e a vida segue. Continua no seu empreguinho mequetrefe, criticando seu chefe e durante o cafezinho falando da bunda da fulana, do mau hálito do sicrano e desdenhando aquele seu colega de faculdade meio esquisito, que foi morar no Nepal e que, no fundo, você gostaria de estar no lugar dele. Antes de chegar ao local do serviço deixou seu filho na escola, imaginado que ali ele estará seguro, protegido do “mundinho” que o cerca e sendo preparado para fazer uma boa faculdade, para ter um bom emprego e seguir a vidinha medíocre que você conquistou. Sem nada arriscar, sempre trilhando o caminho mais batido, que todos seguem. Nada de novo. E você vai ficar velho, se aposentar, ser um ranzinza, vai reclamar de tudo. Vai fincar a bunda no sofá o dia todo e achar que tudo o que os outros fazem não vai dar certo. Vai levar a sério o sangue escorrendo da TV e achar que é loucura seu neto ir a um show de rock. “Tudo maconheiro!”. Vai pronunciar mil vezes por semana a palavra “ no meu tempo...”. Vai enfim perceber que o tempo passou e sua mediocridade lhe matou antes da morte do seu corpo. Vai enfim, estar na cama esperando a morte chegar e se agarrando ao primeiro jaleco branco que aparecer. Vai implorar para viver, pedir para ter a chance de fazer o que teve vontade, mas que nunca fez porque era loucura, porque desapontava outras pessoas, afinal, você estudou para viver uma vida sem riscos. Escrevo tudo isso para dizer: o Ensino Médio não ensina nada de novo. É algo mediano e não poderia ter outro nome. Só prepara os alunos para o Enem. E fico preocupado ao ver as Faculdades preparando seus alunos para o Enade. Algo está errado. Afinal, se o Enem e o Enade existem é para avaliar alunos e cursos com tudo aquilo que eles aprenderam nas instituições de ensino. Não justifica terem aulas com conteúdos específicos para essas avaliações. Aliás, toda avaliação é um jogo perigoso do exercício de poder. Compreendo enfim, que o sistema educacional está a serviço de mediocrizar a população, formando sujeitos para fazerem as coisas dentro do que está estabelecido. Lamento a situação caótica que a escola se atolou. Fico entristecido em ver que todas as crianças, tendo que obrigatoriamente passar por ela, espiam um outro mundo mais interessante pulsando além de seus muros. Fico com as palavras de Rubem Alves quando disse que “tudo o que a escola tenta ensinar está lá na Internet e nos livros, cabe ao professor provocar o espanto”. O espanto. O professor que causa espanto. É desse sujeito que a Escola depende para se salvar. *ALTEMIR DALPIAZ é professor e mestre em Educação [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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