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ARTIGO
Quinta-feira, 22 de Março de 2007, 20h:33

PAULO RONAN

Martin Scorsese

Quando aqui escrevi sobre a morte do grande cineasta Gilles Pontevorvo, pedi permissão ao Gustavo Oliveira para fazê-lo. Não por ser o dono do negócio, mas por estar a cada dia alinhavando melhor sobre cinema nestas folhas. Recentemente, esteve aqui falando do belo filme do Cao Hambuger Paulo Leite e teve o mesmo cuidado. Agora, o faço novamente para falar desta reparação histórica da Academia de Cinema de Hollywood ao dar o prêmio de melhor diretor para este cidadão que dá nome ao artigo. A turma que forma o conjunto de votantes do Oscar nunca gostou de Scorsese. A crítica e a imprensa de lá são como aqui, odeiam quem pensa. Ele sempre foi autônomo em relação àquela babaquice e cafonice de Los Angeles e até mesmo em relação à sua suposta turma da escola de cinema da Columbia University, de Nova Iorque. Tinha uma grande relação com Harvey Keitel e Robert de Niro, ambos de lá, que ele conseguiu romper. Começava a fazer mal pra ele esta relação meio que automática com estes grandes atores. Mas sempre buscando novos atores. Sempre achei que Vivendo no Limite não deu certo por conta da presença desastrosa de Nicholas Cage no papel principal. Foi uma destas novas buscas. Era um peso enorme para a turma que faz o Oscar não ter dado nenhum prêmio para ele. Parece que Robert Altman e Chaplin também não tinham nenhum na prateleira. Se não me engano, Stanley Kubrick também não. Se erro, tenho certeza, algum dos meus 22 leitores corrigirá. Mas a verdade é que esta turma aí é meio autônoma como Scorsese e, portanto, não leva. Ao ganhar, foi notícia no mundo inteiro a alegria que tiveram, e estavam presentes à solenidade Spielberg e Copolla. Seus velhos amigos de Nova Iorque sentiam um certo constrangimento não ter uma estatueta o gênio da geração. Agora, chegou com Os Infiltrados. Minha superstição deu certo. Só vi o filme depois da premiação. Primeira vez desde Taxi Driver. Deu sorte. Não queria que ele ganhasse com O Aviador. E sofri igual a um cachorro por não ter ganho com Gangues de Nova Iorque. Tenho muitos amigos que não gostam deste último. Eu acho um dos melhores. Aliás, vou assumir: é o melhor para mim e me angustia terrivelmente não ter sido premiado. Aquela cena de Cameron Diaz indo assaltar a casa da grã-fina na parte norte de Manhattan ainda não foi devidamente dissecada pela indústria do cinema. Falo pra meus amigos desta cena. Eles acham normal. Aquilo é demais. Parece que ele quer fundir o filme Tempos de Inocência, dele. Os Infiltrados termina com o corpo no chão na entrada de um apartamento e a câmara sai da história, ou do corpo, e vai para a abstração da cidade grande pela janela. No parapeito da própria, sujando a pureza da cena, um rato brinca. A cidade é Boston, onde se desenrola todo o enredo e é sempre mostrada de forma suja, conservadora. A cena final ela se pasteuriza e fica limpa, mas com rato. Este bicho nojento mostra toda sujeira que foi contada no filme, que é a traição dentro do crime e da polícia. Tem tudo dele no filme. Estão lá suas marcas. A Igreja Católica que ele freqüentou na infância o impressionava pelos seus cânticos e ritos, mas o machucavam as relações incestuosas com o poder e outras práticas dos seus padres. Tem uma cena em que um mafioso aborda dois padres num restaurante falando de sexo. O filme começa com uma missa ao som de todo aquele lindo rito católico. Scorsese puro. Tem uma psicóloga que vai se casar com o malandro com disfarce de bonzinho e tem um quase-caso com o mocinho com cara de malandro. Sem fazer o juízo de valor, Scorsese põe o mocinho para transar primeiro em uma bela cena, ela com uma calcinha preta linda. Depois aparece ela com o mau-caráter debaixo da coberta, ele de camiseta de costas pra ela, tipo assim: foi uma merda a trepada. Os gangsters ele faz questão de mostrar malvestidos, feios e sem qualquer glamour. A mesma coisa os bares, as mulheres (a psicóloga mais parece uma freira) as comidas, bebidas, etc. Uma maneira de mostrar uma cidade, cafona, conservadora e insuportável onde até a máfia é pior que a de Nova Iorque. Ainda carimbando sua obra, apresenta uma bela trilha sonora não-autoral (nada contra) onde eu reconheci duas músicas dos Rollings Stones e uma do Pink Floyd. Sempre entrava um punk nas horas de tensão dentro do estilo do mestre que sempre namorou este ritmo, daí sua boa relação com a turma do alternativo. * PAULO RONAN é economista [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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