Nesta terça-feira conversei com o secretário de Comunicação do governo, José Carlos Dias, sobre a reação do governador Blairo Maggi à queda da ministra Marina Silva e a indicação de Carlos Minc para o seu lugar no Ministério do Meio Ambiente. Ele me disse que o governador, apesar das divergências com a ministra, não se sentia vitorioso com a sua demissão, mas apenas o tempo dela acabara na função. Perguntei sobre o seu substituto, o ambientalista Carlos Minc, e ele disse-me que o governador via com bons olhos uma possível mudança de eficiência na gestão do ministério. Porém, ontem, ao chegar de Paris, o novo ministro atirou bem na testa do governador Blairo Maggi acusando-o de plantar soja até nos Andes, se deixarem. Estabeleceu-se a briga. O governador emitiu uma nota oficial criticando o futuro ministro e o ambiente azedou antes de começarem as conversas. Aqui levanto a questão política. O ministro é um funcionário público do governo federal. Os estados são unidades com autonomia estabelecida na Constituição e estão acima das ideologias e das ações de pessoas ministeriáveis. Aqui vive a população que trabalha e arrecada impostos. Lá vive a burocracia política. Portanto, onde está a população está a raiz da cidadania e ela não pode se submeter a juízos de valor apressados ou comprometidos por preconceitos. Recorde-se que o futuro ministro é carioca e vive no Leblon, de frente pro mar. Aqui, levanto a História para demonstrar como a vontade dos governos estaduais pode-se impor frente à burocracia federal. De 1967 em diante o governo militar criou a Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oste, Sudeco, uma autarquia federal subordinada ao Ministério do Interior. Ela fazia a ligação do planejamento e do desenvolvimento regionais com o ministério, e este com os demais estágios da burocracia federal. Os governadores precisavam fazer toda a movimentação dos interesses do estado através da Sudeco, onde burocratas faziam e aconteciam. Em 1983 os novos governadores eleitos pelo voto direto, uma vez votados pela população começaram a cortar caminho. Júlio Campos, eleito governador de Mato Grosso, pôs de lado a Sudeco e fazia ligações diretas com os ministérios que precisava e não dava satisfações à autarquia. Houve chiadeiras no começo, mas a vontade dos governadores eleitos prevaleceu. A Sudeco se esvaziou e acabou extinta pelo presidente Fernando Collor em 1990, por ter se tornado obsoleta. A leitura da História que pode se aplicar neste episódio desagradável com o futuro ministro Carlos Minc é usar a política de Júlio Campos. O ministro não elege presidentes da República e nem tem votos. Quem elege e tem votos são os governadores de todos os estados. Parece-me que o governador Blairo Maggi pode atropelar o ministro antes que se crie um novo ninho de cobras no Ministério do Meio Ambiente. Entre um governador e um ministro falastrão, o presidente da República sabe que decisão tomar. Marina Silva caiu por ter falado muito menos. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e das revistas RDM e Centro-Oeste
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