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ARTIGO
Quarta-feira, 05 de Agosto de 2015, 19h:44

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Magnificamente Poliana

A vida dos best-seller é antiga. Alguns desses livros marcam o ser/estar de muita gente. No Brasil, uma dessas produções foi a série Pollyanna (1913) de Eleonor Porter. Por aqui, a 1ª edição foi de 1934; a 6ª, de 1958. Por décadas, quase ninguém escapou de Poliana, que se torna órfã de mãe ao nascer; um tempo depois, perde o pai. Por isso, a garota foi obrigada a morar com uma tia rica, severa e autoritária. Em seu novo lar, Poliana ensina, às pessoas, o "Jogo do Contente", aprendido com seu pai. O jogo consiste em ver algo de bom e positivo em tudo, ainda que nas coisas mais inaceitáveis. Toda criança “normal” queria ter aquela mesma capacidade. Em meu caso, como graduando de Letras, já no final da ditadura, compreendi os porquês daquela leitura ser obrigatória: formar cidadãos subservientes; de preferência, continuadores de um regime/sistema tocado a ferro e a fogo. E aqui começa, de fato, o meu artigo de hoje, motivado pela entrevista que a magnífica reitora da UFMT concedeu ao Diário de Cuiabá de 02/08/15; na versão “on-line”, encontra-se no dia 03. No resumo da entrevista (“UFMT se equilibra apesar de cortes”), é dito que a reitora afirma que o “contingenciamento não afetou programas essenciais, se mostra otimista com novo hospital e fala de política partidária”. Nesse pormenor, seu nome – que já pertenceu à extinta ARENA, partido que sustentou o golpe militar/64 – seria um dos que o PCdoB lançaria mão nas próximas eleições. Mas o otimismo da magnífica vai além das obras paralisadas do “novo hospital”. Ela avalia positivamente toda a expansão irresponsável e privatizante do governo federal. Culmina elogiando o ENEM; por tabela, o Sisu, aquele sistema que faz da escolha do curso superior algo como um jogo de sorte. Questionada sobre os cortes para a educação, a reitora responde: “As universidades estão em processo de consolidação de crescimento, de investimentos em pesquisas, em profissionais. Conseguimos evitar que os programas e ações em andamento não sofram (sic.) qualquer tipo de solução de continuidade. O custeio cai 10% e vamos compatibilizar as despesas, para se evitar paralisar principalmente as obras”. Após ler a entrevista, relembrei de depoimentos de colegas dos diferentes campi da UFMT. Dentre os que participam das assembleias da greve em curso, ou seja, aqueles que não se permitem ter mentes privatizadas, há um coro quase uníssono listando a precarização das condições de nosso trabalho; tanto que no dia 18 entregaremos à Reitoria nossa pauta interna. Ali, há de tudo: da falta de professores concursados a assédio moral. Aliás, em recente “diálogo” durante um curso para professores em estágio probatório, respondendo a uma jovem colega que reclamava da falta de material, como uma mesa, a magnífica pediu que ninguém fosse infeliz na profissão, pois sempre faltará alguma coisa mesmo. Na sequência, apresentou alternativa: “... O dia que vocês tiverem aumento salarial, tirem cem reais por mês e comprem o data show”, por exemplo, pois “ninguém pode ficar refém”, no caso, de ferramentas de trabalho. Na sequência, ao contrário do que afirmara na entrevista, a reitora disse que “a UFMT não é essa maravilha que nós desejamos que ela fosse. Vai faltar sala de aula, sala de professor. Os laboratórios não estão muito bem equipados. Falta computador, falta mesa...” Enfim, na dureza nossa de cada dia, até as polianas mais magníficas parecem se trair no “Jogo do Contente”; logo, eis que as verdades surgem no meio de um enorme salão lotado de professores. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ – doutor em Jornalismo/USP; professor de Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16967




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