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ARTIGO
Quinta-feira, 17 de Abril de 2008, 21h:33

ONOFRE RIBEIRO

Lula, eu, e nós todos

Gostando ou não do presidente Lula, uma coisa ninguém pode negar: o homem se comunica com as massas com uma habilidade nunca vista antes no país. Talvez Getúlio Vargas, o “pai dos pobres” dos anos 40/50, se aproximasse. JK um pouco, depois ninguém mais, nem mesmo o Jânio com sua demagogia populista do tipo andar de bonde e fingir comer sanduíche de mortadela nos comícios. Lula estabeleceu uma linguagem de comunicação que alcança em cheio as camadas populares, é entendido pela classe média e pela classe alta. Ontem ele disse: “ou nós matamos o mosquito da dengue, ou o mosquito mata a gente”. De outro modo poderia ter dito: “precisamos cuidar da prevenção da dengue”. O fato é que o pobre entendeu perfeitamente que precisa combater o mosquito da dengue, porque ele mata. É uma linguagem direta e clara, sem meios termos. Isso tem feito de Lula um fenômeno de comunicação que no futuro certamente merecerá teses e mais teses acadêmicas. Estou dizendo isso, porque ele se tornou um presidente descolado de tudo. Não dá bolas para o Congresso Nacional, atropela o Judiciário, atropelou a classe média que sempre incomodou os governantes brasileiros, ri da mídia e a usa sem problemas, ri dos intelectuais desesperados com as suas tiradas de momento. Pobres em ciência e fortíssimas em conteúdo de mensagem. Olha com desdém para os partidos políticos, afaga os governadores e faz deles massa de manobra, deixa que se fale em terceiro mandato, finge ficar zangado. Defende figuras indefensáveis como Severino Cavalcante e Renan Calheiros, e afaga Dilma Rousseff. Mas no fundo está testando a opinião pública. Afastou-se do seu PT e do próprio governo, e navega solitário em mares calmos. Nenhuma crítica o atinge pessoalmente, nenhum dossiê, nenhuma crise dos cartões corporativos. Nada o atinge. E o mais curioso, é que ele não tem nenhum outro apoio, nem mesmo o militar. É um ser messiânico, solitário, acima de todas as instituições e de tudo. Como explicar isso, perguntaria o leitor? A resposta é simples. Porque esgotaram-se aqueles que sabiam falar com a opinião pública. Na falta de outro, Lula tomou a cena para si. Falar em sumiço das lideranças políticas nacionais, é chover no molhado. Daí Lula ser o “imperador”, democraticamente e sem oposições de nenhuma espécie e sem militares ou militantes para garanti-lo. Conheci-o na Rádio Vila Real, em Cuiabá, quando disputou contra Collor, em 1989. Um mês antes agendei com seu assessor de imprensa uma entrevista ao vivo quando ele viesse a Cuiabá. Ele chegou á rádio às 7 horas, conforme combinado. Veio com mais duas pessoas. A entrevista foi combinada que teria a predominância de perguntas dos ouvintes feitas através de três telefones, ao vivo e sem censura ou controle prévio. Ele topou, e nisso ficamos três horas: ele, eu e a jornalista Paula de Bôrtoli. Os ouvintes se fartaram de questioná-lo, e os que se atreveram a agredi-lo, acabaram seduzidos pela sua linguagem mansa e conciliadora. Completamente à vontade, riu muito no ar e não queria ir embora, apesar da luta dos petistas que invadiram a rádio para vê-lo. Queriam levá-lo para falar na UFMT. Ele dizia: “gente, entendam, aqui estou falando pra todo mundo. Lá já é tudo gente nossa. O nosso negócio é aqui no rádio”. Contrariado, foi embora às dez e meia, depois de três horas e meia no ar. Hoje, mais maduro, mais experiente, faz do Brasil esse fenômeno de domínio político pelo bom uso da comunicação que todo mundo entende. E depois, ainda diz na maior calma: “Eu não sei de nada”. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




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