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ARTIGO
Terça-feira, 17 de Junho de 2008, 21h:05

ANSELMO CARVALHO PINTO

Ironia globalizada

Sentimentos nacionalistas se afloram de Norte a Sul. Grupos se mobilizam na internet contra a invasão estrangeira. Um indisfarçável clima de preocupação com a ameaça à soberania nacional. Um ícone do país prestes a se aninhar às garras do capital globalizado. Não se fala em outra coisa no mercado cervejeiro mundial. Para simplificar bastante, pode-se dizer que a Brahma está prestes a ser dona da Budweiser, a cerveja mais popular dos Estados Unidos e uma das mais vendidas no mundo. Sim, dias atrás a Inbev – fermentada a partir da união da AmBev com a Interbrew e comandada pelo brasileiro Carlos Brito - fez uma oferta hostil de US$ 46 bilhões aos acionistas da Anheuser-Busch, que produz a Bud e vende uma em cada duas cervejas na América do Norte. É o capitalismo subvertendo a lógica que move as relações entre pequenas e grandes potências. O gracejo publicado no The Telegraph dias atrás dá mostra de como a proposta foi inicialmente recebida: “um grupo estrangeiro, baseado na Bélgica e comandado por brasileiros, comprando a Anheuser-Busch? A cervejaria número 1 dos Estados Unidos? Por favor!”. É mesmo irônico. Se o negócio se concretizar, a Inbev terá nada menos do que 25% do mercado mundial de cerveja, consolidando sua posição como maior do planeta no ramo. A venda da Bud tem provocado calorosas discussões nos Estados Unidos, que não aceitam ver um símbolo de seu país borbulhando em copos estrangeiros. Uma enquete do “Jacksonville Business Journal” ouviu a opinião de seus leitores esta semana. Oito em cada dez disseram ser contrários à venda do patrimônio. Amantes da cerveja puseram na rede o site SaveBudweiser.com, onde até o final da semana passada um abaixo-assinado relacionava cerca de 50 mil assinaturas. Outro site, o SaveAB.com, conclama: “com sua ajuda, poderemos enfrentar a invasão estrangeira e lutar para salvar este tesouro norte-americano”. O Barclays e o multimilionário Warren Buffet são dois dos maiores acionistas da Anheuser-Busch. Então, o que está em jogo não é um mero sentimento de patriotismo ou de proteção a um ícone cultural. Trata-se essencialmente de negócio. Se for vantajoso, a Bud será da Inbev. A concretização de uma oferta hostil independe da vontade dos controladores – e menos ainda dos admiradores. Mas há uma esperança para os norte-americanos. A direção da Anheuser-Busch tem 50% das ações do Grupo Modelo, do México, que fabrica a Corona. A idéia é comprar a outra metade da empresa mexicana e, assim, tornar-se mais poderosa e cara, a ponto de desestimular o apetite da Inbev. A briga é boa, e seu desfecho está próximo! ANSELMO CARVALHO PINTO é editor-executivo do Diário [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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