Imaginar-se com o uniforme do inimigo não é um exercício fácil - essa projeção raramente afina-se de verdade com o ponto de vista de quem está do outro lado da trincheira. O cineasta Clint Eastwood, porém, topou o desafio: rodou ao mesmo tempo dois filmes que narram como americanos e japoneses viveram uma das batalhas mais sangrentas da II Guerra. Ao lado de A Conquista da Honra (produção que mostra o conflito no Pacífico pelos olhos dos Estados Unidos, e que passou nos cinemas de Cuiabá), Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, EUA, 2006), falado em japonês e estrelado por atores nipônicos, é a contraparte de um projeto artístico ambicioso. Infelizmente este último não pode ser visto em nossos cinemas e só agora chegou em DVD. Concebido por Eastwood enquanto fazia as pesquisas históricas para A Conquista da Honra, o retrato da guerra pelo lado japonês nasceu quando o ator e realizador descobriu o livro que reúne as cartas enviadas à mulher e aos filhos pelo general Tadamichi Kuribayashi, comandante que resistiu durante 35 dias ao massivo ataque americano à inóspita mas estratégica ilha de Iwo Jima. Para Eastwood, a descoberta da rica personalidade do estrategista que concebeu uma rede de bunkers e de 18 quilômetros de túneis no solo rochoso - de onde os 22 mil soldados japoneses combateram os 77 mil americanos entre fevereiro e março de 1945 - foi a chave para especular a respeito do adversário. Como em A Conquista da Honra, a história de Cartas de Iwo Jima é contada a partir das experiências de um punhado de personagens. No entanto, Cartas..., como o próprio nome indica, é mais intimista do que a versão americana do evento, concentrando-se principalmente em exibir os sentimentos e angústias daqueles homens encurralados pela guerra. Também as patentes e as classes sociais dos protagonistas são mais variadas: há desde honoráveis oficiais, como Kuribayashi (vivido pelo excelente Ken Watanabe, de O Último Samurai e Memórias de uma Gueixa) e o aristocrata e campeão olímpico de equitação Nishi (Tsuyoshi Ihara), até soldados de origem comum, como Shimizu (Ryo Kase) e Saigo (Kazunari Ninomiya). Quem costura o roteiro de Iris Yamashita e Paul Haggis (roteirista também de A Conquista da Honra) é o jovem Saigo, um padeiro na vida civil que, forçado a entrar no exército imperial, vira testemunha ocular do desenrolar dos fatos: o tédio antes do combate, a chegada de Kuribayashi - general cuja formação nos Estados Unidos desperta a desconfiança do oficialato -, a ofensiva americana e a ausência de reforços de Tóquio, a claustrofobia do entocamento em cavernas, a iminência da derrota e o suicídio dos companheiros que seguem a determinação militar de preferir a morte à rendição. Em Cartas de Iwo Jima, Eastwood caminha em direção ao Outro, tentando entender como o oponente sofreu a guerra - tragédia que a todos toca, mas de maneiras tão distintas quanto o número de vítimas. No díptico formado por A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, o velho caubói do cinema apresenta uma arma comum contra a barbárie: a dignidade. GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de Redação do Diário
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