O guaraná ralado para mim é uma instituição cuiabana. Eu sei que ele na verdade é amazônico e que seu mito de origem, que conto mais adiante, pertence à etnia Sateré-Maué. Mas como desde criança vejo a minha avó ralar o guaraná na grosa para mim é como se ele fosse nosso de nascença. Lembro que ainda criança não podia beber o guaraná. Não sis criança, guaraná é pra adulto. O tempo passou e esse pó faz parte da minha vida toda semana útil. Explico: evito bebê-lo no final de semana só para não criar um vício permanente. A energia que ele me dá para o trabalho é a mesma, creio eu, que o café oferece aos seus adeptos. O guaraná nasceu do olho de um indiozinho. Sim, o mito e suas variações apontam o mesmo olho como a semente originária. Teria havido um indiozinho que foi assassinado pela inveja. Deste, foi tirado o olho esquerdo e plantado, vindo daí o guaraná falso. Também foi tirado o direito, que deu origem ao guaraná Maué. Neste final de semana o Marcelo Leite escreveu sobre o banzo que acomete brasileiros no exterior e que faz com que estes paguem preços exorbitantes pelas garrafinhas verdes de guaraná. Sei o que é isso, porque por um prato de feijoada mais ou menos, pagava em Londres trinta reais. O engraçado é que o Marcelo traz uma referência de 1669 quando o padre Felipe Betendorf cita a tradição pela primeira vez. E ao explicar o hábito indígena mostra que se fazia o uso do guaraná na forma líquida e não em pó como o conhecemos. Este líquido era coletado em uma cuia e bebido a pequenos goles em roda a la chimarrão, com uma pequena diferença, somente o chefe da tribo podia secar a cuia que era reenchida caso ele quisesse continuar a conversa. Foi em 2004 que descobri uma história de número de águas que o guaraná deve levar. Perguntaram-me: - Com quantas águas se faz o guaraná?, a pessoa logo afirmou, como você cuiabano não sabe!? bem, segundo ele são três águas. Minha vó nunca tinha ouvido falar disso, mas achei a matemática interessante de qualquer modo. Pesquisando sobre o guaraná achei um texto do Roberto Loureiro em que ele afirma que na falta do guaraná até lamber couro era considerado um ritual válido para matar a vontade. O guaraná da garrafinha já não tem nada de Maué e o símbolo defendido pelo então deputado Zé Carlos do Pátio (1999) não é mato-grossense e sim Sateré-Maué. Bem, talvez não era, hoje, o guaraná faz parte do nosso cotidiano e independente de quando e como chegou aqui, tenho certeza que não vai embora nunca mais. * CLAUDIO DE OLIVEIRA jornalista, mestrando em Estudos Culturais e repórter do DC Ilustrado Mantém um blog: ponteseportas.blogspot.com. e-mail:
[email protected]