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ARTIGO
Segunda-feira, 03 de Agosto de 2009, 21h:01

RENÊ DIOZ

Gil e a caricatura

Gilberto Gil recobrou a lucidez, voltou com a cabeça no lugar. Numa entrevista concedida à revista Brasileiros de julho, o baiano mostra que parece ter saído não somente do ostracismo, aquela nuvem que pairou sobre si devido à controversa passagem pelo Ministério da Cultura, mas da caricatura na qual se tornou mais recentemente devido à comicidade de seus trejeitos e à insistente gagueira que se popularizaram no Youtube – mas que lhe tiraram o crédito. Principalmente para o público jovem e naturalmente menos afeito à obra de Gil, os vídeos hilários que circularam na internet comprometeram a sua imagem. Neles, Gil aparecia em diversas entrevistas para televisão em que tropeçava em seu próprio raciocínio e sucumbia à própria gagueira. Não conseguia concluir uma só sentença e o comportamento foi logo relacionado aos efeitos do uso prolongado de maconha. Virou motivo de piada, dessas para as quais a internet é tão fecunda. A longa entrevista para a Brasileiros, todavia, contribui para mudar-lhe a figura. Para mim, foi nela que Gil primeiramente se mostrou um homem de discurso interessante em diversos temas após a criatividade tropicalista, coisa que somente seu parceiro Caetano parecia conseguir fazer até hoje – mas não sem alguma polêmica, o que lhe é intrínseco. Desta vez, não vi nada mais lúcido que a maneira como o baiano abordou seus episódios de homem público - como secretário municipal de Cultura em Salvador, depois vereador da mesma cidade e, por último, ministro da Cultura – e o valor de sua obra artística, apontando com humildade a possibilidade de ela ser, às vezes, superestimada. A conversa também passou pela indústria fonográfica e aí Gil se mostrou também bastante “antenado”, reconhecendo que os próprios artistas agora têm de admitir uma necessidade essencial para nossos tempos: a de rever seus próprios esforços dentro de uma lógica comercial mutante, onde a internet permite a apreciação gratuita, superficial e aleatória. Isso porque foi Gil quem antecipou o papel da internet na vida do brasileiro em suas canções, quando nem a conexão discada era popular. Foi ele também o primeiro artista brasileiro a criar um canal no site youtube, o mesmo um de seus vídeos de “lesado” figura com mais de 200 mil acessos. Por fim, a imagem do ex-ministro da Cultura se transforma. Quem sabe sair do governo e voltar para a carreira artística, com planos de pé na estrada, tenha sido eficientemente saudável. É com sustentação que Gil pode agora anular a caricatura. RENÊ DIÓZ é repórter

Edição EDIÇÃO 16966




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