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Cuiabá MT, Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 10 de Novembro de 2007, 13h:14

LUIZ CESAR DE MORAES

Fuja dos extremos

Eu tenho uma predileção especial pelos provérbios populares que costumam sintetizar amplos significados em poucas palavras. Não é preciso se alongar muito nos arrazoados e nas explicações quando você consegue fazer uma citação que cai como uma luva para um dado momento, que até parece ter sido escrita para aquela situação específica. Algo do tipo “para quem sabe ler, um risco é francisco”. Um desses ditos recheados de sabedoria popular recomenda que “você não deve criticar ninguém antes de caminhar uma milha com os sapatos dele”. É óbvio que nem esse provérbio nem os demais devem ser usados com exagero nem tampouco podem ser levados ao pé da letra, da forma como foram escritos, “ipsis literis” como diziam os romanos. Eles funcionam mais ou menos como as parábolas utilizadas pelo “Mestre dos mestres” para falar aos seus seguidores, quando um assunto abordado aparentemente nada tinha a ver com o tema da palestra, mas no fundo, após uma reflexão mais acurada, uma coisa tinha tudo a ver com a outra. O que salta aos olhos quando ouvimos alguém citar o provérbio dos “sapatos alheios” é que quem critica alguém sem levar em conta os problemas que envolvem a vida do criticado corre o risco de opinar sem conhecimento de causa e cometer grave injustiça. Como é que você pode condenar um velocista que fazia uma corrida perfeita, estava bem à frente dos demais, mas de repente começa a diminuir a marcha até que finalmente cruza a linha de chegada atrás dos cinco primeiros colocados? A gente não sabe as razões que forçaram o corredor a reduzir o ritmo de tal forma a perder uma corrida considerada praticamente ganha. Pode ser que ele tenha tido um mal súbito. Ou que uma pedra no seu sapato o tenha incomodado tanto a ponto de comprometer-lhe o desempenho. Por isso a crítica precisa ser baseada em fatos para não incorrer em erro de avaliação e pecar por precipitação. Aliás, uma pedra no sapato foi a origem do substantivo “escrupuloso”, derivado do latim “scrupulu”, que quer dizer “pedrinha”, mas que passou a designar o soldado romano marchando com dificuldade por sofrer dores e sentir-se incomodado com um pedregulho na sandália. Daí se convencionou chamar de escrupulosa a pessoa excessivamente preocupada, aparentando dúvida de consciência ou remorso excessivo, ou ainda com mania de retidão de caráter. As pessoas escrupulosas costumam ser sistemáticas, ordenadas, metódicas e coerentes com uma determinada linha de pensamento. A experiência demonstra que quando lidamos com pessoas com esses traços, dificilmente somos decepcionados. São pessoas que integram um grupo confiável. Mas é sempre prudente lembrar que as posições extremas podem surpreender. Mais uma vez a sabedoria dos romanos entra em cena, alertando que “in medio stat virtus”, ou seja, que a virtude se situa num ponto de equilíbrio entre dois extremos.

Edição EDIÇÃO 16967




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