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ARTIGO
Terça-feira, 04 de Março de 2008, 21h:30

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Flores para Rosa Luxemburgo

Poucas vezes a mídia enfatizou tanto a vida de alguém como fez com a de Fidel. Para muitos, um ditador cruel; para outros, um revolucionário. Aliás, os revolucionários andam em alta, ao menos na mídia. A maior rede de TV, para anunciar o canal Futura, nos lembra de Galileu, Robespierre, Joana d'Arc e Tiradentes. Claro que a lembrança não é de exaltação a nenhum ideal revolucionário; ao contrário, conforme o anúncio, vive-se, hoje, o exercício de liberdade plena que dispensa posturas sociais contundentes. Seja como for, incluo, nesse rol de humanos significativos, o nome de Rosa Luxemburgo. Se estivesse viva, faria aniversário num exato 5 de março. Óbvio que não recordo de Rosa apenas pelo aniversário. Lembro-me, sobretudo, por conta das bolhas imobiliárias dos EUA; também pela estatização do banco inglês Northern Rock, especialista em créditos imobiliários. O 8 de março - Dia Internacional das Mulheres - também me faz lembrar Rosa. A comemoração da data nasceu sob a égide de ações revolucionárias de mulheres. Mas, afinal, o que as bolhas imobiliárias e um banco inglês têm a ver com Rosa? Direi. Antes, porém, é preciso contar quem foi essa mulher. Rosa nasceu no sudeste da Polônia, em 1871, ano em que os franceses proclamaram a Comuna de Paris. Em 1897, adquiriu a cidadania alemã. Sua trajetória de vida sustentou-se na luta por uma sociedade justa e igualitária. Para isso foi exímia teórica, sem abandonar a organização concreta dos trabalhadores onde vivia. Opôs-se com veemência à Primeira Guerra Mundial; tanto que em 1915 foi presa por fazer propaganda contra a guerra. Durante a tragédia internacional, ficou detida a maior parte do tempo. Ao sair da cadeia, sua liberdade não durou muito. Em 1919, durante uma greve de operários, ela foi novamente presa e executada com um tiro na cabeça. Detalhe: o social-democrata Noske estivera à frente das tropas militares que combateram com milícias revolucionárias, das quais Rosa participava. Noske era um membro do grupo político de Rosa, o Partido Social-democrata Alemão (SPD). Isso foi num 15 de janeiro. No campo acadêmico, ela combatia o cerne das teses de Bernstein, outro integrante do SPD. Para este, a revolução já não era necessária. Acreditava em reformas graduais do capitalismo, adaptando-se a ele. Uma das teses bernsteniana era o sistema de crédito. Para Rosa, isso não tinha a menor sustentação. Com brilhantismo e pertinência, Rosa, sobre o crédito, disse o que segue: "...em vez de um meio de supressão ou atenuação das crises, o crédito, ao contrário, não é senão um meio particularmente poderoso de formação das crises. Aliás, não podia ser de outro modo. A função específica do crédito consiste, de fato - para falar de modo geral - em eliminar o resto de fixidez de todas as relações capitalistas, em introduzir por toda a parte a maior elasticidade possível, e em tornar todas as forças capitalistas extensíveis, relativas e sensíveis ao mais alto grau. É evidente que com isso ele só facilita e agrava as crises, que outra coisa não são senão o choque periódico das forças contraditórias da economia capitalista (...). Em suma, o crédito reproduz todos os antagonismos fundamentais do mundo capitalista, acentua-os, precipita o desenvolvimento, fazendo correr o mundo capitalista para sua própria supressão, isto é, para o desmoronamento..." (In: Reforma ou Revolução. SP. Ed. Expressão Popular, 1999, p. 30-1). Ficou claro, agora, por que me lembrei das "bolhas imobiliárias" e da estatização do banco Northern Rock, ao me recordar de Rosa? Porque, com sua leitura marxista, ela conseguiu antever o que estamos vivendo. No fragmento acima, faltou pouco a Luxemburgo usar ipsis litteris o termo da hora: "bolha imobiliária". No mais, ela fez o papel do grande pensador revolucionário: apontou as contradições do sistema em que vivia. Ao fazer isso, chamou para si a ira dos agentes do capital, desnudados por uma mulher. Ao se perceberem nus, não lhe pouparam a vida. Por isso, hoje, é preciso oferecer flores a Rosa e aprender a pensar a sociedade atual com ela. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é dr. em Jornalismo/USP e professor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16967




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