O reino do Butão, incrustado em deslumbrante paisagem do Himalaia, trocou há décadas o método de aferição da prosperidade comunitária. Substituiu o PIB (Produto Interno Bruto) pela FIB (Felicidade Interna Bruta). O inovador sistema brotou da cachola de um governante dotado de aguçada sensibilidade social, logo se vê. Cidadão empenhado no plantio de estruturas de vida aptas a conferirem ênfase, na busca do progresso, aos índices de desenvolvimento humano voltados para o ideal da sustentabilidade. Príncipe Jrgme Singye Wang-chu-k, o nome do personagem. Para execução de seu projeto revisionista ele recorreu à ajuda do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). As medidas adotadas influenciaram significativas mudanças nos padrões comportamentais da população. As modificações tiveram em mira o bem-estar social. Não ficaram apenas no plano retórico, como acontece amiúde mundo afora. Generosos anseios de crescimento pessoal ocuparam o centro das decisões nas políticas públicas praticadas. Partiu-se da constatação de que as tradicionais concepções universais sobre o que seja prosperidade não contemplam, nem sempre, os verdadeiros interesses humanos. O PIB, segundo reconhecem reputados estudiosos das ciências sociais, projeta de certo modo uma contabilidade distorcida, desfalcada de humanismo. Deixa ao largo das cogitações imediatas itens valiosos em matéria de desenvolvimento. Parece desconhecer que, além das tabulações econômicas, o processo da construção social autêntica deve englobar informações relativas à educação, expectativa de vida, e outros valores de cunho psicológico-espiritual indissociáveis da dignidade inerente ao ser pensante. País de PIB minúsculo, o Butão é lar de quase um milhão de pessoas que convivem, no exercício cotidiano, com índices nulos de miséria. Cultura, educação, saúde, uso do tempo, ecologia, padrão de vida, vitalidade comunitária, boa governança e bem-estar psicológico são os fatores constitutivos da FIB, repita-se, Felicidade Interna Bruta. Esses aí os alvos obsedantemente perseguidos pela criatividade e esforço produtivo do país. O ser humano é reconhecido como a medida correta das coisas. Por isso o Butão transformou-se num formidável laboratório experimental onde a criatividade, o labor, a conjugação de vontades estão concentrados no propósito de assegurar a satisfação das pessoas sobre a própria vida. Com toda certeza, esse reino é o pedaço do mundo onde melhor se compreende o desagrado causado à aventura da vida em sua essência por essa tremenda e perversa confusão estabelecida entre fins e meios, como consequência da ganância reinante no planeta. Os fins relembremos - são sempre sociais. Os meios, vistos como tais a economia, a educação, a tecnologia, são apenas suportes utilizados para se atingir os objetivos. Sempre sociais. * CESAR VANUCCI é jornalista
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