Este mundo velho de guerra sem porteira, em seu frenético giro pelas vastidões cósmicas repletas de inexplicabilidades, continua a expor, dramaticamente, os contrassensos, as emoções sofridas, as reações amalucadas e os despropósitos das multidões que o povoam. Pra onde quer que o olhar se volte tem algo desconcertante pintando no pedaço. Nos convulsionados territórios do Oriente, onde prevalece sempre uma confusão das arábias, nem se fala! No Iraque, sabidamente democratizado e pacificado pelas forças de ocupação da coalizão anglo-americana, os carros-bomba explodem todos os dias em locais de grandes aglomerações, ampliando as estatísticas apavorantes de um morticínio sem data pra acabar. No Afeganistão, as tropas da OTAN e as milícias talebãs e seus aliados da sinistra Al Qaeda confrontam-se em batalhas que preferencialmente escolhem vitimas na indefesa população civil. Nenhum dos contendores sente-se à vontade para proclamar vitória. O domínio de certas zonas urbanas pertence a um dos lados. O controle de imensas áreas de população rarefeita ao adversário. Igualzinho ocorreu, anos atrás, quando os invasores desse país onde judas perdeu as botas foram os russos. O cenário social e econômico, por outro lado, tanto tempo transcorrido desde a invasão, não se alterou um tiquinho que seja. A miséria campeia, os direitos humanos, sobretudo das mulheres, são clamorosamente espezinhados. Já as plantações de papoula, essenciais à produção de heroína que abastece os mercados ocidentais são toleradas, quando não incentivadas, representando fonte de renda para os clãs feudais que partilham o poder. E uma pergunta incômoda permanece suspensa permanentemente no ar: quem, afinal de contas, responde pelo suprimento das armas que dão sustentação ao esforço de guerra dos fanáticos guerreiros talebãs? A resposta poderá ser aterrorizante. Na Líbia, onde o terror imperante nos tempos da ditadura Kadafi foi devidamente substituído pelo terror implantado pelos sucessores de Kadafi, as bandeiras da Al Qaeda tremulam em prédios públicos. E os parceiros das diferentes correntes ideológicas encasteladas no governo democrático instituído em Trípoli são protagonistas de frequentes escaramuças onde o sangue jorra pra valer. A tremenda encrenca síria, de motivação tribal, acumula atrocidades inenarráveis produzidas por um regime despótico, de décadas. A reação inflamada contra o que já pode ser visto como uma guerra civil não consegue deter a mortandade. E, para muitos analistas, a retórica das grandes potencias camufla o desejo de deixar as coisas correrem pra ver só como é que ficam, avaliada a variável geopolítica de que a retirada de cena do empedernido ditador Bashar al-Assad possa dar acesso ao poder de grupos mais indigestos, se é possível conceber-se ainda tamanha provação a mais para o povo sírio. O Egito é bem um exemplo eloquente de recuos deploráveis na marcha para a democracia. Os militares, verdadeiros donos do poder desde os tempos de Mubarak, não parecem dispostos a abrir mão de seus privilégios. Dissolveram o Congresso, atribuíram-se prerrogativas de legislar, julgar e de gerenciar os negócios públicos, tornando quase que decorativa a posição do presidente recentemente eleito. Com a mobilização popular nas praças, reprimida, mas ainda demonstrando alguma capacidade de resistência, a situação na terra dos faraós só tende, futuramente, a se complicar. Dos demais países alcançados pela hoje declinante onda da primavera árabe, a grande mídia ocupa-se pouco. Teme-se estejam ocorrendo nalguns lugares retrocessos funestos. Da Arábia Saudita, reino tão fechado quanto a Coreia do Norte, o que se sabe com certeza é que o autoritarismo feudal imposto aos súditos pela realeza não se mostra realmente disposto a quaisquer concessões na linha do respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana. E tem, por último, uma revelação incrível, esta chegada do conturbado Oriente Médio, onde as negociações de paz permanecem em compasso de espera, apesar das resoluções sucessivas da ONU em favor da criação do Estado da Palestina, todas elas, também, sucessivamente desrespeitadas. Sem o alarde que fato tão relevante, face às naturais implicações geopolíticas embutidas, faz por merecer, a Alemanha vendeu seis submarinos nucleares para o Estado de Israel. Três deles já estão em operação e carregam ogivas capazes de varrer qualquer lugar do mapa. O complexo midiático conservou-se mudo e quedo que nem penedo a respeito. As grandes potencias também preferiram o silêncio. Silêncio danado de estridente. * CESAR VANUCCI é jornalista
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