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ARTIGO
Terça-feira, 29 de Setembro de 2009, 23h:35

ROBERTO B. DA S. SÁ

Educação de lá e de cá

Minha terra não tem a educação como lá! Lembranças e lamentos poéticos à parte, pergunto: quem já não ouviu que educação/escola é direito de todos? Esse discurso – que parece democrático – esconde sutilezas nada democráticas. Acesso à escola, por si, é óbvio, não garante o “direito de aprender”. Até para os filósofos de bar, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”! No editorial “Tendências/Debates”/Folha de São Paulo (FSP), de 16/09/09, há o artigo “O direito de aprender em primeiro lugar” de Antônio Matias, vice-presidente da Fundação Itaú Social. Para fazer jus ao nome do editorial, penso que o referido artigo não poderia passar incólume a quem se preocupa com a qualidade da educação no país; afinal, Matias, que não transita por escola alguma, traz itens que devem pensados. O primeiro deles está exatamente no título. O autor, com pertinência, permuta os substantivos “educação/escola” pelo verbo “aprender”. Na gramática tradicional, via-se, desde cedo, que, geralmente, verbos denotam ação. A partir dessa mudança de termos, o discurso de Matias centra-se na comparação dos tipos de educação que se ofertam nos EUA e em Cuba, respectivamente. Para isso, comenta o resultado de duas pesquisas, há pouco lançadas no Brasil, sobre a educação naqueles países, cujas “...características socioeconômicas, políticas e culturais são amplamente diversas...”. Sinteticamente, diz que o estudo “A reforma educacional de Nova York: possibilidades para o Brasil” traz “...reflexão sobre a importância de colocar no foco das possibilidades o direito de aprender de crianças e adolescentes”. Já no estudo “As vantagens acadêmicas de Cuba”, do pesquisador Martin Carnoy, conforme Matias, são investigados os “diferenciais das escolas cubanas que levam seus alunos a ter um desempenho superior ao dos brasileiros”. A partir desse último estudo, Matias, usando a pesquisa de Carnoy, diz que “o trabalho infantil fora de casa é praticamente inexistente em Cuba, em vivo contraste com outros países...”. O Brasil que o diga. Por conta dessas informações, o autor do artigo da FSP, até pelo seu papel social, não dispensa a oportunidade de tentar atenuar a cara da gritante desigualdade em sociedades capitalistas, como a estadunidense e a brasileira. Isso se explicita quando diz: “O contraponto cubano surpreende ao colocar em xeque o argumento de que as condições socioeconômicas são o único determinante para o déficit no aprendizado”. Teria Matias razão? De minha parte, tenho apontado tópicos que ajudam na explicação do desastre de a educação brasileira já ter ultrapassado as profundezas do pré-sal de Lula quanto à qualidade: 1) insuficiência de verbas; 2) baixos salários dos professores; 3) deficiências na infra-estrutura em escolas; 3) adoção de teorias e práticas pedagógicas contempladoras do arcabouço construtivista/neoliberal/pós-moderno, com destaque à aprovação automática, via séries ciladas, ou melhor, cicladas. Desses tópicos, os primeiros estão diretamente ligados a questões estruturais do Estado capitalista brasileiro que, invariavelmente, faz opção política pelas elites; portanto, por cá, a força socioeconômica disso é preponderante. Apenas o último item não está mais visivelmente ligado à estrutura. Essa ligação ocorre pela ideologia: algo mais sutil e difícil de ser percebido numa primeira vista; por isso, até mais perverso. Como se vê, as más condições socioeconômicas são, sim, determinantes para déficits de aprendizado, principalmente em sociedades capitalistas, todas fomentadoras de consumismo ensandecido, o que não ocorre em Cuba, de viés socialista; e é isso que determina tanta diferença, não só na educação, mas em tudo o que se pensar. Para desmontar ainda mais a afirmação de Matias, basta olhar o resultado do Enem/2007. A melhor escola pública do país ocupou a 1935ª posição. Antes dela, só há particulares, de onde está alijada a maioria dos filhos de trabalhadores. Justamente porque as condições socioeconômicas determinam a qualidade da educação é que não se deveria negar o direito ao aprendizado. No mais, só resta dar vivas à educação cubana! De cá, espero que os de lá, sem jamais perder a ternura, não capitulem! * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Ciência da Comunicação/USP. Prof. de Literatura/UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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