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ARTIGO
Quarta-feira, 09 de Maio de 2007, 21h:09

WANDER ANTUNES

E quem não acha seu filho lindo?

Faz algum tempo já que a Secretaria de Estado de Cultura convidou o povo da música, cinema, audiovisual e literatura para conversar e quis saber quais, do ponto de vista desse pessoal todo, são as prioridades para a cultura. Fui membro da comissão de literatura. Outro dia estava navegando e, no site da SEC, esbarrei com um texto comentando as reuniões. Foram feitas sugestões valiosas, propondo um maior incentivo por parte da secretaria para estimular a leitura através de atividades com escritores mato-grossenses nas escolas, além da realização de atividades lúdicas com as crianças durante a Literamérica. Maravilha! Como não concordar? De todo modo, confesso não ter sido autor de tais propostas – embora, obviamente, concorde com todas elas! Usei um bom tempo de minha fala defendendo a urgência em se criar projetos capazes de dar visibilidade à nossa literatura, de torná-la mais presente na vida dos mato-grossenses. Um desses projetos já existe, é a Literamérica. E certamente o governo do estado fará uma bela feira este ano, melhor ainda que as edições anteriores. Mas eu sonho mesmo é com livro, com revista, com a experiência da leitura presente no cotidiano das pessoas. Meu desejo é que circulem mais e mais produtos editoriais nesse estado. Nunca é demais citar aquela máxima de que ninguém ama aquilo que não conhece, não é mesmo? Todo mundo sabe que temos poucas livrarias, que o índice de leitura é, certamente, bem menor do que poderia, do que deve ser. E todo mundo sabe também que projetos individuais, por mais qualitativos e bem realizados que sejam, têm alcance limitado por seu orçamento, tiragem e cidade onde vivam seus proponentes – mesmo os que se pretendem estaduais não dão conta de cobrir todos os municípios. Imagino que minha Estação Leitura seja o projeto individual que fale com a maior base de leitores, são 15 mil exemplares distribuídos gratuitamente em faculdades, livrarias, centrais de ISSQN, Ganha-Tempo e outros espaços. Outra característica importante de Estação é ser um projeto coletivo. Há na publicação um saudável convívio entre autores maduros e iniciantes – média de dois em cada uma das últimas 4 edições. Se de um ponto de vista me parece uma iniciativa interessante, valiosa mesmo, por outro devo apontar o que vejo como o limite de um projeto como o meu, além, é claro, daqueles já mencionados: Estação tem minha cara, traduz muito da minha visão de mundo, reflete meu gosto literário, mesmo que tente não impô-lo. Não há, creio eu, nada de errado nisso. Acho inevitável que todo autor, todo produtor cultural, imprima muito de si no que realiza, mesmo estando à frente de um projeto coletivo. Esse limite imposto ao projeto individual, seja ele qual for, somente será transposto pelo projeto coletivo capitaneado pelo governo. E acho que Mato Grosso merece algo nos moldes de Estação Leitura, mas que ao mesmo tempo seja muito maior, que transcenda o limite e o gosto de um único realizador. Sonho com uma revista capaz de ampliar em muito o que proponho com a minha, que tenha uma grande tiragem, que abra espaço para novos autores, que chegue a cada município mato-grossense. Foi basicamente o que defendi na reunião com o coordenador de Intercâmbio Cultural da Secretaria de Estado de Cultura, Carlos Roberto Ferreira. Como, talvez por conta da busca de síntese ou por falta de espaço no site, a assessoria de imprensa da SEC não divulgou minha contribuição no texto sobre o resultado da consulta às comissões, me pareceu pertinente retomar e apresentar de público as proposições feitas na ocasião. Talvez seja muito narcisista pretender que minha iniciativa seja reproduzida e ampliada por uma ação de estado. Pode até ser, mas quem não acha seu filho lindo? Quem não acha que ele é ‘o cara’? Outra possibilidade é que minha visão do que possa ajudar a melhorar o panorama seja simplista demais – e confesso que não sou de problematizar muito, acredito mesmo que o problema é, fundamentalmente, de acesso. E diante disso acho que o primeiro movimento a se fazer – urgente e obsessivamente! - é tornar a literatura produzida aqui acessível, encontrável. E aí está, evidentemente, implícito que essa literatura precisa ser de boa qualidade – só é necessário ter a mente aberta para o fato de que há muitas traduções para a idéia de boa literatura. Simplificações à parte, o fato é que foi feito um convite, esse convite foi aceito e propostas foram feitas. Agora estamos esperando a aplicação, ou não, dessas propostas. * WANDER ANTUNES é editor de Estação Leitura, contista e roteirista de histórias em quadrinhos

Edição EDIÇÃO 16964




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