Neste período de entresafra de bons filmes, livros e músicas volto ao tema da semana passada: a crise dos alimentos. Dois episódios recentes colocam o Brasil, um dos gigantes da produção primária, no centro das preocupações relacionadas a esta crise. Um deles é a suspensão, pela Argentina, das exportações de trigo, das quais o país depende para abastecer a maior parte de suas necessidades. O outro é a decisão do Ministério da Agricultura de sustar as vendas externas dos estoques oficiais de arroz, usados em condições normais para regular os preços recebidos pelos produtores. Em ambos os casos, a conta vai acabar sobrando para os consumidores, particularmente os de menor renda, para os quais os gastos com bens alimentícios pesam mais no orçamento. Daí a responsabilidade do poder público diante do impasse, pois será preciso contemplar os interesses dos consumidores, sem prejudicar os de quem produz e com o mínimo de interferência nas regras de mercado. Os problemas que até mesmo um importante celeiro do mundo como o Brasil começa a enfrentar não são isolados. Países ricos e pobres estão às voltas com as conseqüências de uma perversa combinação de condições climáticas adversas, o aumento da demanda por proteínas na China e na Índia, o impacto dos preços do petróleo sobre os insumos e os transportes, a ênfase aos biocombustíveis e, mais recentemente, a especulação dos investidores que passaram a apostar em commodities. O resultado é o preço nas alturas e, o mais grave, com a perspectiva de que permaneçam num novo patamar, mesmo se as cotações favoráveis levarem os produtores a reagir, plantando mais. A preocupação fez com que, nos Estados Unidos, uma grande rede de supermercados tenha limitado a quantidade de arroz que os clientes podem adquirir. O influente economista Paul Krugman chega a advertir que "os bons tempos podem simplesmente ter acabado". E mais: que "alguns países pobres se encontrarão perigosamente perto da beira do abismo". No Brasil, as conseqüências atingiram justamente os produtos mais consumidos pela população: primeiro o feijão, depois o trigo e seus derivados e, agora, o arroz, com a perspectiva de impacto também no milho, normalmente usado como ração pelos produtores de carnes. Num país que lutou tanto para estabilizar os preços e no qual o aumento do poder aquisitivo levou a uma maior ingestão de calorias, o fenômeno que nem mesmo os especialistas conseguiram prever com clareza é particularmente preocupante. O Brasil, na condição de grande produtor mundial de commodities agrícolas, porém, tem condições privilegiadas para contornar a crise e até mesmo se beneficiar dela. Uma missão imediata será conciliar os interesses de quem consome e de quem produz. Outra, não menos urgente, será transmitir segurança aos produtores, com políticas de extensão e creditícia adequadas, convencendo-os a aproveitar o potencial agrícola do país para produzir e ganhar mais. Resta saber se o entrave da questão ambiental vai deixar... GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de redação do Diário
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