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ARTIGO
Segunda-feira, 01 de Março de 2010, 22h:13

ENOCK CAVALCANTI

Donato Fortunato Ojeda

Meus amigos, meus inimigos: a mídia se ocupou muito pouco do desembargador Donato Ojeda. Recordo que recebeu maior projeção quando Juiz da Infância, em Cuiabá. Ojedão, como é chamado, é a figura mais tranqüila que conheci neste Judiciário de Mato Grosso. Recordo-me, nos tempos do juizado, da Regina Borela, então parceira de Hélcio Corrêa e da irmã Dineva, no Movimento de Meninos de Rua, opinando que Ojedão era descansado demais, um juiz que atuava neste ritmo cuiabano em que devagar se chega ao longe. Ojedão está completando 70 anos e todos os magistrados, quando chegam a esta idade, são aposentados compulsoriamente. Só que um dos seus filhos me informou que dias antes da compulsória, ele pretende apresentar pedido voluntário de aposentadoria. A explicação é que Ojedão não quer ser confundido com estes 10 magistrados que o CNJ acaba de aposentar compulsoriamente por corrupção. Aposentadoria que deveria ser uma pena mas que todo mundo, na rua, entende que é um despautério, um privilégio que precisa sair da legislação. Os juízes não podem ter penas diferenciadas. Como é que fica o princípio constitucional de que todos são iguais perante a Lei? O fato é que Ojedão vai descansar, finalmente, em sua chacrinha, lá na Guia, onde construiu um refúgio indevassável. Escrevo sobre o Ojedão talvez porque esteja com inveja dele – para mim ainda faltam uns três anos para pendurar as chuteiras. Sim, estaria feliz se tivesse um lugar assim, paradisíaco, onde sossegar com meus livros, meus discos, minha internet e, se encontrasse mulher paciente e esquerdista, uma namorada. Sempre achei desejável aquela casa no campo cantada pelo poeta Rodrix. Por isso, respeito o Ojedão que vai pra casa sem responder a processo no CNJ, sem que ninguém olhe para ele como se a Polícia andasse à sua cata. Volta e meia, o Beto Slhessarenko me gritava que isso e aquilo contra o Ojedão iria estourar – mas nunca aconteceu. Seria bom se todos nossos magistrados pudessem se aposentar aparentando a mesma bonomia que o velho Ojeda. Na verdade, a compulsória que atingiu os 10 magistrados deve nos encher de tristeza e melancolia. Um time desse tamanho, cuidando da nossa Justiça – e, no final, acabam no olho da rua porque favoreceram a Maçonaria com dinheiro do Judiciário. Eu me sinto angustiado, sinto vontade de correr pra casa, pra debaixo da cama. Para a minha chacrinha, que sequer existe. Quando comecei no jornalismo, em Nova Iguaçu, um de meus incentivadores foi um juiz, o Bellot de Souza. Uma vez fomos beber chope à beira mar, na Avenida Copacabana e Bellot ficou apoplético ao perceber que toda hora nosso papo era interrompido por um velho que mendigava, um garoto que oferecia rosas murchas. “Não dá para ter paz, nesse País, a miséria está sempre gritando que somos privilegiados”, sapateava Bellot. O belo mar azul, as ninfas seminuas, tudo foi esmagado pela dura realidade de uma Copacabana povoada por pessoas sem rumo. Em sua chacrinha, Ojedão certamente terá mais tranqüilidade que Bellot em Copacabana. Pelo menos, Ojedão vestirá pijama e acompanhará o balé dos vaga-lumes com a consciência pacificada. Logo, logo, irão se juntar a ele Antonio Bittar, Jurandir Castilho e Leônidas Monteiro. É bom ver que esses sairão do TJ pela porta da frente e, se forem românticos, pedirão que todos façam sentido à sua passagem, enquanto os Bombeiros executam o Hino Nacional. “Brasil, de amor eterno seja símbolo/ O lábaro que ostentas estrelado/ E diga o verde-louro desta flâmula/ Paz no futuro e glória no passado”... Neste momento em que nosso Judiciário está dilacerado é bom imaginar que desembargadores e juízes que lá se mantém se dispõe a reafirmar este poder diante de nossa Cidadania. O voto de Ives Gandra Filho, no julgamento dos 10, pode servir como farol: “De um juiz se espera que distribua Justiça, o que faz da Justiça sua matéria-prima. Assim, se não é justo na vida privada, que garantia teremos de que o será na vida pública e nos mister de julgar? (...) A integridade da conduta do magistrado fora do âmbito estrito da atividade jurisdicional contribui para a fundada confiança dos cidadãos na judicatura.” * ENOCK CAVALCANTI, jornalista, é titular do blogue www.paginadoe.com.br

Edição EDIÇÃO 16967




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