ARTIGO
Terça-feira, 05 de Junho de 2012, 13h:30
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LORENZO FALCÃO
Depois do almoço
Foi perdido em nome dos novos tempos? Não dá nem pra contar. Mas dá uma sensação boa quando o que foi rechaçado, motivo de chacotas e risadas, é reconhecido como sabedoria e conhecimento. Um dos hábitos que quase foram abandonados, eis que volta com a corda toda: a gostosa e benéfica sesta. Em Cuiabá, antes, bem antes... era comum o comércio fechar suas lojas a partir do meio-dia e retornar lá pelas duas horas da tarde. Os viajantes e o povo que veio pra cá trataram de levar e espalhar no sul maravilhava não só o costume cuiabano. Acrescentaram ao fato a fama de que o povo daqui era preguiçoso. Registre-se, entretanto, que em alguns bairros de Cuiabá pequenos comércios ainda fecham pouco depois do meio-dia e só reabrem após as duas. Nesse horário não vem quase ninguém, só ladrão, disse um comerciante. Imaginem um lugar onde não se precisava morrer de preocupação e de trabalhar para conseguir o alimento de todo dia pra família? Peixe em abundância e de várias espécies; água e terra a perder de vista. Mandioca, abóbora, banana, feijão, arroz; era só plantar e colher. E que tal essa: sair depois da chuvarada pra catar pepitas de ouro nas ruas, lavadas pela água celestial. Já viu um negócio desses? Mas a sesta não passa só por aí. Pela tranquilidade e abundância. Tem a ver com o entendimento da natureza. Num lugar quente, onde o almoço é a principal refeição que vem munida de sustância e mais sustância, o corpo há de pedir uns minutos do precioso tempo pra digerir essas delícias. O processo de digestão é complicadíssimo. O cérebro comanda uma atenção especial para desempenho da função. O sangue se concentra na região mais solicitada e por isso ocorre um pequeno déficit em outras, por momentos. Daí, a gostosa sonolência... A vontade que dá mesmo é de dar uma deitadinha, de puxar a palha, queimar a pestana, fazer o quilo e por que não aproveitar se der e fazer aquilo? E ainda morgar, conforme se dizia num passado ainda recente. Para algumas pessoas meia horinha ou até quinze minutos bastam. Outros prolongam por duas horas ou mais. Os primeiros acordam refeitos, com pilha nova, para o restante do dia. Os outros costumam acordar de mau humor e com o tal gosto de guarda-chuva na boca. Em ambos os casos, um guaranazinho ralado cai bem. A medicina constatou que dormir depois do almoço, hábito adquirido com os espanhóis, é salutar. Hoje muita gente e empresas modernosas, que primam pela qualidade de vida de seus funcionários vêm adotando essa prática. O mito da preguiça caiu. E outros vêm na rabeira, como o da lauta refeição matinal, por estas bandas denominado de quebra-torto. É do bem! O estilo das antigas. Não somente restabelece práticas e hábitos, de forma folclórica e saudosista. Essa retomada vem chancelada por pesquisas e estudos que confirmam sabedoria e garantia de saúde. Chupa essa, manga! LORENZO FALCÃO é editor do caderno Ilustrado do Diário e escreve neste espaço às terças-feiras