Têm vezes que me surpreendo com a minha falta de capacidade para entender esse mundo em que vivemos. Mais alguns poucos anos e me torno balzaquiano no ofício da notícia. Acho que uma mistura de ingenuidade e de ideologia vem massacrando meu raciocínio ao longo do tempo. Quanto mais vivo e mais aprendo a observar a condição humana, pareço entender menos de tudo, apesar de algumas certezas irem se cristalizando na minha cachola. O interesse e o prazer que a violência causa nas pessoas é algo com o qual venho sendo obrigado a conviver. Não é de hoje que trabalho como assessor, além da prática do jornalismo. Ser assessor e ser jornalista são coisas muito diferentes, apesar de terem em comum o trabalho na comunicação. Costumo avisar meus assessorados, quando marco entrevistas para repercutir algo na imprensa que, se na mesma hora da entrevista marcada, acontecer um acidente, um crime bárbaro, uma revolta num presídio etc., o fato que estamos tentando emplacar na mídia vai perder de goleada para o evento que envolve a violência. Ninguém duvida disso. A maior parte das pessoas, sabemos, vai preferir ler ou assistir algo que seja impactante e violento, em vez de uma notícia que traduza benefícios ou boas novidades à sociedade, em geral. Não penso assim e nunca agi dessa maneira, daí que sou minoria absoluta. E já perdi a força de me revoltar contra isso. A comemoração dos americanos com a morte de Osama bin Laden é coisa que pode ser comparada com a conquista de uma Copa do Mundo. Esse louvor à violência representa o sucesso que o sangue tem na mídia. O sucesso das imagens do enforcamento de Saddan Hussein, há alguns anos, foi algo que também deveria provocar toda a sorte de reflexões na população mundial. Mas parece que é isso mesmo e tudo bem. A gente gosta mesmo da violência e ponto final. Uma tia minha que já se mandou costumava dizer que futebol, pra ser bom, tem que ter gol e briga. Na noite de domingo fiquei chocado com o nocaute que o brasileiro Lyoto Machida aplicou no americano Randy Couture, no UFC, esse esporte de luta onde vale tudo mesmo. Coisa de louco. Um chute no queixo do outro e pá, bosta, como diriam os cuiabanos de antigamente. Estou vendo a hora em que um lutador, nesse tal UFC, vai morrer ao vivo. E não tenho outra alternativa a não ser terminar este texto dizendo deixa pra lá. Que o mundo, enquanto o ser humano estiver por aqui, vai ser sempre assim mesmo. Morrer faz parte da vida. E a morte, quando está envolvida com a violência, dá muito mais ibope e algumas coisas parece que nasceram para não mudar nunca. LORENZO FALCÃO é editor do caderno Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras
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