Decisão é fácil, quando não há mais escolha. (Narasinha Rao ex primeiro ministro indiano- 1921). Decidir é sempre um processo oneroso. E o pior é que diariamente temos que decidir. Vou, ou não vou. Corto o cabelo, ou não. Telefono, ou deixo isto prá lá. Ainda jovem temos que escolher a profissão, o namoro, o casamento. Número de filhos, onde trabalhar. Decidir em pedir as contas do emprego infeliz e às vezes partir para uma nova união. Como a decisão faz parte do nosso cotidiano, a possibilidade de errar é grande. Se adoto uma vida de pouca decisão, estou comprando passagem para a mediocridade. Se não decido não erro, mas sou infeliz. Toda esta introdução fiz para narrar uma das decisões mais difíceis da minha vida que teve o seu desfecho no dia 31 de julho de 1964. Foi quando resolvi voltar à Cuiabá para exercer a minha profissão. Antes passei por um laboratório de Raios-X tomando litros de bário (contraste) para verificar se estava com úlcera no estômago. À época não se praticava a endoscopia gástrica, muito mais confortável que aquela série de fotografias do estômago. Era a conseqüência orgânica da decisão tomada: pedir demissão de dois empregos conquistados por concurso, minha mulher com uma gravidez cujo final foi parto normal trinta e oito dias após a nossa chegada em Cuiabá, e aquela dolorosa dúvida será que vai dar certo? Como todo brasileiro sou supersticioso. A incerteza era tamanha que a nossa viagem de retorno foi no último dia de julho para evitar o agosto considerado injustamente o mês do desgosto. E o nascimento da minha filha? Poderia ser no final de agosto, ou como aconteceu na primeira semana de setembro. Não foi parto pré-datado ou programado. A natureza é que escolheu o dia e a hora. Passados quarenta e cinco anos, e há três anos sem a minha companheira de aventuras e sofrimentos, tenho a certeza da decisão tomada como a correta. Três filhos, cinco netas e um neto foi a fatura que paguei à vista com muita alegria por esta decisão. Os meus filhos todos casados com paulistas. E as decisões continuam a preencher a minha rotina. No Brasil existe a cultura da fobia às decisões. É mais seguro empurrar as nossas dificuldades com a barriga. No serviço público então um simples requerimento ao chefe para deixar o trabalho mais cedo a fim de assistir a um velório, vira uma enciclopédia com centenas de páginas e o maravilhoso despacho ao. Simplesmente porque todos sabem que decisão é um ato que faz sofrer, de muita responsabilidade e ninguém quer assinar o ponto final dando por encerrado o ao. Os que são chamados para tomar decisões ao longo dos tempos criaram verdadeiras obras de engenharia defensiva. Formação de comissões para estudar o problema a ser resolvido. Reuniões, reuniões, reuniões. Convocação de assessorias especiais para ajudar no imbróglio. Finalmente apresentação de um estudo preliminar para discussão. Falta alguém avisar aos que decidem que se não fosse para cometer erros ninguém tomaria decisões. O 31 de julho é o centro geodésico das minhas decisões. Data emblemática. Último dia de julho pela minha indecisão, e fuga do agosto pela minha superstição. Houve menos erros e mais acertos nas decisões que a vida me preparou. Ganhei nos acertos. * GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT