Antônio Alves da Silva, piauiense de Campo Maior, chegou ao Nortão em 1979, arrastado pelo sonho da fortuna fácil nos garimpos de ouro da região, fundou Novo Mundo, cidade da divisa com o Pará. Os cabelos compridos da juventude lhe renderam o apelido de Cacheado. Homem que aliava trabalho e sorte, Cacheado ganhou dinheiro no garimpo, montou uma bela fazenda à margem da BR-163, organizou a vida. Aluno da escola do mundo Cacheado aprendeu a assinar o nome. Ausente do banco escolar pela dureza da vida retribuiu com grandeza essa adversidade: construiu as duas primeiras escolas de Novo Mundo. Esse breve relato sobre Cacheado e a origem de Novo Mundo foi a melhor maneira encontrada para que pudesse falar sobre as ações propostas pelo Ministério Público Estadual (MPE) contra o governo de Mato Grosso e as prefeituras de Guarantã do Norte e sua vizinha Novo Mundo, para obrigá-los a retirar de circulação uma engenhoca muito querida nos sertões e que chama Girico, mas que também é conhecida por Baco-Baco ou ainda Paco-Paco. Preocupada com os acidentes envolvendo Girico na comarca de Guarantã, a Promotoria local quer banir esses veículos de circulação. Respeito, mas lamento e questiono tal postura do MPE. Entendo a necessidade de medidas amargas para a humanização do trânsito. No entanto é preciso analisar a questão desses improvisados carros com amplitude maior. O Girico é filho do casamento da ausência do Estado com o sistema financeiro. O governo tradicionalmente penaliza o pequeno agricultor, e os bancos, tão generosos na concessão de financiamentos para carrões, não abrem linhas de crédito para a compra de utilitários simples pelos homens das mãos calejadas. Sem alternativa o brasileiro lançou mão de sua criatividade e produziu um carrinho feito com a canibalização mecânica nos ferros velhos. Ao invés de banir o Girico o MPE deveria fomentar sua melhoria mecânica para dotá-lo das condições mínimas de segurança. Para tanto, o ideal seria sensibilizar o governo para a criação de uma linha de financiamento da Agência de Fomento do Estado (MT Fomento) para os montadores de fundo de quintal e os compradores do carrinho, e que tal linha incluísse a remodelação da frota existente. Paralelamente ao crédito o MPE deveria também sugerir ação de transversalidade administrativa para a elaboração de normas de circulação urbana e rodoviária e a qualificação dos motoristas. Ao invés de ação judicial o Girico requer ação social. Espero que o MPE reflita sobre isso, porque sou adepto da máxima: antes tarde do que nunca. EDUARDO GOMES é jornalista
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