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ARTIGO
Quinta-feira, 09 de Abril de 2009, 20h:10

JAYME CAMPOS

Cultura da paz

Com o término da Quaresma, chega também ao fim a Campanha da Fraternidade de 2009, promovida anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – a CNBB, que trouxe uma abordagem corajosa e inadiável da mais dolorosa ferida de nossa comunidade. Segurança é hoje, assunto prioritário na discussão de nosso futuro; não mais como simples método de combate ao crime, mas sim como modelo de organização social de nossa comunidade. Só a repressão não basta. Precisamos, neste momento, da reparação de equívocos institucionais e políticos para encararmos, sem receio, a face medonha de uma sociedade que se dividiu entre uma elite com acesso a tudo e os excluídos que nada podem. Como preconizam os prelados nacionais, se faz necessário, de agora em diante, a construção da cultura da paz! E essa não é uma tarefa exclusiva do Estado, mas sim uma tomada de consciência do conjunto da sociedade brasileira. Pois é uma jornada de sacrifícios e renúncias. Um caminho que vai se trilhar esquecendo-se dos preconceitos, perdoando as ofensas e recompondo o sentimento de justiça. Evangelizar, para a Igreja Católica, ganha também um novo significado: o da unção e cura das chagas daqueles que sofrem por serem vítimas silenciosas da violência. As balas perdidas, os arrastões e a banalidade do crime não ferem somente o indivíduo na rua; mutilam nosso sentido de coletividade, roubando nossa confiança e a própria fraternidade que nos criou como civilização. Sim, somos vítimas silenciosas do crime. Temos nossa liberdade subjugada; temos nosso direito à propriedade usurpado; assim como vemos furtadas nossas esperanças. Vivemos com medo, assistindo impotentes a uma luta imoral de bandidos pela supremacia de áreas urbanas, e as não menos criminosas ocupações violentas de territórios no campo. Justamente a CNBB, entidade guia na luta contra a intolerância política, no passado recente, agora lança um facho de luz sobre as trevas de um assunto tão triste e espinhoso para nosso país, quanto a violência. Contudo, ela não prega o castigo ou a revanche, ela fala serenamente da construção da cultura da paz. Sua missão pastoral propõe a comunhão social e a reconciliação de nossa gente. Toda essa filosofia está concentrada num único versículo do livro do profeta Isaías, que ensina que “A paz é o fruto da justiça”. A palavra de Isaías indica a justiça como o caminho mais curto e menos traumático para o combate à violência. Não a justiça divina, que é certa e infalível, mas a justiça terrena, que se faz com a negação ao crime, com o combate à corrupção, com a preservação ambiental, com a multiplicação de oportunidades para os jovens, com o respeito aos mais idosos, com a geração de emprego, com o direito à mobilidade social, e com o pleno acesso à educação pública de qualidade. A missão pastoral dos bispos brasileiros não se restringe doravante a simplesmente propagar a palavra; sua tarefa agora será a de semear o sentimento de perdão em nossos corações. Não o perdão que se confunde com impunidade; não o perdão leniente e irresponsável; não o perdão que se omite; mas sim o perdão que resgata o sentido pascal da tolerância e da ressurreição – que representa a esperança e a renovação. Por isso, parabenizo a CNBB pela grande obra evangelizadora, cumprimentando a Igreja pela coragem e independência com que defende as causas do povo brasileiro; mas quero, sobretudo, cumprimentar as centenas de milhares de fiéis anônimos que fazem da oração, da penitência e da fé, o poderoso escudo que mantém vivos os valores cristãos de nossa sociedade. * JAYME CAMPOS é senador da República (DEM/MT)

Edição EDIÇÃO 16967




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